Em 28 de maio de 1964 foi fundada a OLP, Organização pela Libertação da Palestina, na ocasião foi apresentada uma carta com suas motivações expostas do início da carta ao fim dos 29 artigos. Traduzi-a e deixei disponível para download e leitura (neste link).

Neste artigo examino os pontos mais importantes e a intenção real expressa na carta.

Antes de começar é necessário esclarecer dois pontos:

1) O que significa Palestina?

Literalmente Palestina, ou Filistia, é a tradução direita de “Peléshet”.

Historicamente, é um território de disputa constante, mas que jamais esteve sob domínio cultural árabe.

Trata-se de um termo geográfico, não do nome de uma nação ou estado: Jamais houve um estado chamado Palestina.

Fundadora e Primeira-ministra de Israel do Estado de Israel
Fundadora e Primeira-ministra de Israel do Estado de Israel

“Não existe uma nação árabe chamada Palestina (…). Palestina é o nome que os romanos deram para a terra de Israel (Eretz Yisrael) com o intuito de enfurecer os judeus. Por que deveríamos usar o mesmo infeliz nome dado para nos humilhar? Os ingleses escolheram chamar a terra que eles controlavam de ‘Palestina’, e os árabes pegaram este nome como seu suposto nome milenar, apesar de nem sequer conseguirem pronunciá-lo corretamente. Eles transformaram a Palestina em ‘Falastin’, uma entidade ficcional.”

Golda Meir

2) O que é a OLP?

OLP é a sigla para Organização pela Libertação da Palestina, na prática tratou-se inicialmente da organização de grupos comunistas clandestinos ( Fatah, FPLP, FDLP, entre outros ) com objetivo de orquestrar suas ações, que tinham como objetivo a destruição do estado de Israel reconhecido em 1947.

Entender as duas questões acima é o pré-requisito para começar a lidar com o assunto em termos gerais, e é suficiente para ninguém se sentir perdido no assunto.

Segue a análise da Carta Nacional Palestina, peço que leiam a Carta Nacional Palestina (clique neste link) em paralelo, para acompanhar o raciocínio.

A introdução da carta é constituída de sete curtos parágrafos nos quais a base do discurso é nitidamente a luta de classes marxista, não por acaso, nem por narrativa histórica, mas porque os grupos clandestinos Fatah, FPLP, FDLP e demais eram todos marxistas (segundo Ion Mihai Pacepa, esta carta foi elaborada em Moscou, pela KGB, a tradução da entrevista dele à uma revista americana será um dos artigos desta série).

No primeiro parágrafo, o discurso é que o povo árabe-palestino luta historicamente contra a injustiça, o que por si só é uma loucura, pois não existiu jamais um estado chamado Palestina, apenas um termo geográfico, e o território passou por guerras de naturezas diversas, como persa e britânica, mas nunca foi um território de cultura majoritariamente árabe.

No segundo, o discurso direciona a culpa histórica ao movimento sionista, o que é outra loucura, pois o movimento sionista surge a partir da última década de 1800, ou seja, 1890, e sofre espólio por Hitler durante o nazismo, espólio e genocídio esse que eles aplaudiam até Hitler também ameaçá-los; o absurdo consiste em afirmar que um movimento de 50 anos, é culpado por toda história de lutas no território anteriores a ele.

No terceiro, afirmam que o território do estado de Israel lhes pertence e que pretendem tomá-lo por meio da al-jihad (guerra santa), em outras palavras, o método é o terrorismo.

No quarto, afirmam que atacar e destruir o estado de Israel é autodefesa, mesmo sabendo que Israel teve início oficial como estado em 1947, e que a intenção de destruí-lo ganha expressão jurídica com esta carta apenas em 1964, ou seja, consideram autodefesa atacar um estado reconhecido juridicamente no mínimo 17 anos antes e que não os estava atacando, pelo contrário, estavam sendo atacados; o absurdo aqui ganha corpo sólido de loucura quando afirmam que tal direito é baseado em convenções internacionais, inclusive pela ONU na Carta das Nações Unidas, e para concluir a loucura deste parágrafo, afirmam que estão baseados em direitos humanos, ou seja, são jihadistas dos direitos humanos.

No quinto, aumentam os propósitos da causa alegando tratar-se também de liberdade e dignidade, ou seja, marxistas ortodoxos cujo método é a ditadura do proletariado, e cujos genocídios são numericamente insuperáveis, lutando pela liberdade e dignidade do indivíduo através da destruição de um estado.

No sexto, assumem a responsabilidade em nome do povo, como se houvessem sido eleitos pelo povo, mesmo ignorando que não houve qualquer processo democrático que os elegesse, e que o primeiro Congresso Nacional Palestino, ocasião de apresentação desta carta, contou exclusivamente com comunistas e apoio internacional da Liga Árabe, sem qualquer outro representante que fosse do povo local.

No sétimo, o juramento de cumprir os objetivos.

Durante toda introdução acima os comunistas da OLP autonomeiam-se os representantes máximos do povo palestino, sem qualquer processo democrático cuja população tenha sido ouvida e os tenha eleito, o que receberam foi apoio internacional da Liga Árabe, mas seus conterrâneos não foram jamais consultados.

Entre os absurdos da introdução, o principal é a afirmação que os comunistas são os representantes do povo chamado palestino, como se o povo estivesse desejoso da ditadura do proletariado.

O estilo literário da introdução da Carta Nacional Palestina é exatamente o mesmo da Carta das Nações Unidas.

Agora, os 29 artigos.

No primeiro, aparece intenção de formar uma a “pátria grande”, integrando este território à Liga Árabe, vindo de comunistas, tal integração territorial não é novidade.

No segundo, fazem menção à Transjordânia, o território da ocupação britânica de 1921 à 1946, como território indivisível, sendo que a Inglaterra abandonou a administração do território em 1948, um ano após o reconhecimento do estado de Israel.

No terceiro, reforçam a ideia de “nação árabe”, indiretamente reforçando a ideia de integração territorial, o que vindo de comunistas, é evidente tratar-se da criação de um bloco, no Oriente Médio, e confirmam no final com “unidade”. Oras, não se trata do povo aqui, mas de comunistas.

No quarto, afirmam que o povo palestino terá livre arbítrio após a destruição de Israel, tal afirmação é feita por um congresso realizado exclusivamente por comunistas, que a ninguém mais ouviu, nem mesmo o próprio povo.

No quinto, afirmam que existe uma personalidade palestiniana, como um elemento cultural do território, transmitido hereditariamente, os mesmos que não ouviram o povo, servem-se de uma suposta tradição cultural como pretexto para destruição de um estado.

No sexto, afirmam que os nascidos no território de Israel ou fora, que em algum momento residiram ali, são na verdade palestinos, esquecendo que nunca houve um estado chamado Palestina, senão uma definição geográfica e um lugar-comum cultural, o que implica que todo árabe da região teria direito sobre o território do estado de Israel.

No sétimo, afirmam que os judeus são também palestinos, contanto que sejam pacíficos e leais àqueles que os querem matar, e que deixam isso claro nesta mesma carta.

No oitavo, aparece um nacionalismo idêntico ao nazista como dever, e tal dever é além de nacionalista é espiritual, ou seja, o terrorismo da jihad.

No nono, estabelecem uma ordem na qual o dever de destruir Israel é superior às políticas sociais e economia, isso partindo de comunistas, em outras palavras, eles vão lá morrer, e nós ficamos com os bens e ditamos as ordens.

No décimo, estabelecem três lemas que no final são nacionalismo nazista para destruição de Israel, e afirmam novamente que após a destruição de Israel o povo será livre para escolher políticas sociais e econômicas; ou seja, serão livres para escolher os comunistas, pois mais ninguém haverá nas lideranças para ser escolhido.

No décimo primeiro, concatenam-se indiretamente as intenções de formar um bloco árabe com o reforço constante do nacionalismo nazista, isso partindo de comunistas torna cada vez mais claro que o objetivo real é um bloco comunista em todo Oriente Médio, e que para tanto o estado de Israel se tornou uma barreira substancial.

No décimo segundo, confirmam que o objetivo é inegavelmente a criação de um bloco comunista, uma “pátria grande” em versão árabe, para o qual o estado de Israel é uma barreira: Quem discordar que explique por quê motivo a OLP é exclusivamente formada por comunistas.

No décimo terceiro, afirmam que a mera existência do estado de Israel é uma ameaça à existência de toda nação árabe, e que portanto a luta pela destruição de Israel é uma necessidade de todo o território. É lógico que isso é uma loucura: A existência de Israel não ameaça qualquer outro país, tal afirmação é insustentável.

No décimo quarto, afirmam que a jihad pela destruição de Israel é um dever de todos os cidadãos árabes, e portanto de todos os países da Liga Árabe, estendendo a guerra contra Israel à todos os indivíduos de todos os países árabes na forma de dever moral em caráter nacional; isso por si só, já supera a loucura nazista.

No décimo quinto, o absurdo ganha dimensão laica, afirmam que a jihad pela destruição de Israel tem como objetivo um estado laico, em outras palavras, os membros da OLP consideram-se literalmente “jihadistas laicos dos direitos humanos”. Este artigo merece destaque, pois implica tão somente por plantar essa premissa, que os comunistas trairão os jihadistas assim que concluída a destruição de Israel e tomarão o poder, submetendo-os às práticas genocidas históricas, ou seja, trata-se aqui de um aviso “Vamos traí-los depois, já estamos avisando os jihadistas que nossa intenção é um estado laico, que tomaremos o poder, e que instalaremos a ditadura do proletariado.”.

No décimo sexto, aparecem as preocupações financeiras, neste artigo colocam-se como seguidores dos direitos humanos que aguardam financiamento para destruição de Israel por meio da jihad.

No décimo sétimo, afirmam que a decisão da ONU do reconhecimento do estado de Israel é ilegal e nula, ou seja, afirmam que estão seguindo os preceitos da mesma instituição que estão contra, e que não precisam sequer ouvir ninguém, pois eles, comunistas que não ouviram o próprio povo e se auto-intitularam representantes do mesmo é que sabem o que o povo deseja e necessita, ao mesmo tempo fiando-se na Liga Árabe, a que prometem trair no décimo quinto artigo, tão logo quanto alcançado o objetivo da destruição de Israel.

O décimo oitavo merece atenção especial, nele afirmam que a Declaração de Balfour de 2 de novembro de 1917 é inválida, contradizendo diretamente o segundo artigo que faz menção ao território da Transjordânia, cuja existência dependeu diretamente do Tratado de Sèvres que selou a paz entre o Império Otomano e os Aliados no final da primeira guerra e que continha a Declaração de Balfour, em outras palavras a Transjordânia não existiria sem a Declaração de Balfour. Tal declaração implicava na promessa de criação de um “lar nacional judeu”, e na garantia de respeito à todos os cidadãos não judeus presentes na região. Como elemento histórico, a Transjordânia consagrou a perda de territórios do Império Otomano para os Aliados, territórios estes cuja administração ficou a cargo da Inglaterra, já com o compromisso de criar um território para os judeus, ou seja, Israel. Afirmar que a Transjordânia é um território indivisível conforme o segundo artigo, implica em reconhecer sua validade jurídica, e portanto validar o próprio estado de Israel. Neste ponto a contradição é explícita: Se reconhecem a Transjordânia, necessariamente reconhecem também a Declaração de Balfour.

Ainda no décimo oitavo, afirmam que os judeus não possuem relação histórica ou espiritual com o território de Israel, afirmação essa completamente insustentável, a história do povo judeu é precisamente a história do velho testamento bíblico, sem o qual sequer o conceito judeu existiria. Ainda afirmam que o judaísmo como religião não é uma nacionalidade, ignorando que as bases da própria religião judaica constituem precisamente preceitos de nação, ou seja, um povo unido por costumes e idioma, e ainda com território definido nos livros da própria religião.

Para completar o absurdo, afirmam que o fato dos judeus serem cidadãos de seus estados implica que os indivíduos não possuem coletivamente uma personalidade nacional, em outras palavras, afirmam que os judeus não são judeus justamente por serem judeus.

Neste décimo oitavo artigo os comunistas da OLP assumem a posição de mentirosos conscientes.

No décimo nono, afirmam que o movimento sionista é um movimento colonialista, o que não é de todo verdade, pois as colônias judaicas são para os judeus e não para cooptar outros povos, como foi o colonialismo português no Brasil, ainda afirmam isso simultaneamente defendendo a ocupação britânica, essa sim colonialista nos moldes que acusam os judeus, ainda afirmam que judeus são racistas e fascistas, ao mesmo tempo que defendem os métodos nazistas no décimo artigo. Em seguida afirmam que a mera existência de Israel é uma ameaça à paz mundial, e que por esse motivo os outros países do mundo lhes devem financiamento, neste ponto não se trata mais financiamento como sugestão, conforme o décimo sexto artigo, mas agora de dever; a loucura aqui consiste em afirmar que financiar o terrorismo significa garantir a paz mundial. Ainda, afirmar que Israel, o país que apenas se defende de ataques terroristas é uma ameaça à paz mundial, é tão débil que dispensa comentários.

No vigésimo, extrapolam os limites anteriores estabelecendo que os outros países tem dever moral de repudiar o sionismo, ou seja, quem quer concorde com o estabelecimento do estado de Israel, deve ser criminalizado imediatamente.

No vigésimo primeiro, afirmam que são adeptos da justiça, liberdade, soberania, e autodeterminação, contanto que recebam verba internacional para destruir Israel, cujos cidadãos por sua vez, deduzo que não sejam dignos de justiça e liberdade, cujo estado não seja digno de soberania, e cuja autodeterminação não seja válida para eles. Este artigo é uma das mais frágeis contradições desta carta.

No vigésimo segundo, afirmam que respeitam as leis e prezam pela coexistência pacífica, contanto que o estado de Israel seja destruído pela jihad. Aqui tornam-se “jihadistas laicos pacifistas dos direitos humanos”.

No vigésimo terceiro, anulam o vigésimo segundo ao afirmar que realizando a jihad pela destruição de Israel estão cumprindo as leis da OLP.

No vigésimo quarto, afirmam que não comandam determinados territórios, que apenas comandam a guerra pela destruição de Israel, a política e a economia, o resto não. Me questiono a que se refere esse resto e não alcanço resposta alguma, talvez trate-se do sabor do sorvete que os cidadãos destes territórios preferem, ou a forma de amarrem seus calçados.

No vigésimo quinto, assumem a responsabilidade de quaisquer atos na jihad pela destruição de Israel, inclusive nos outros países árabes.

No vigésimo sexto, afirmam que através da OLP cooperam com todos os países árabes, sem participar de seus estados, contradizendo o décimo quarto artigo que estabelece que a jihad é um dever moral de todos os países e cidadãos árabes.

No vigésimo sétimo, afirmam que a OLP terá sua bandeira, juramento e hino nacional, e aqui é um ponto de muita atenção, pois se o hino nacional é da OLP, então não há distinção entre a OLP e a Palestina, e ainda, se a OLP é constituída exclusivamente por comunistas, então não só confundem-se a entidade OLP com o suposto estado palestino, como sua identidade nacional com o comunismo. A confusão é muito séria neste artigo, pois ele por si só já torna clara a intenção comunista.

No vigésimo oitavo, afirmam que esta carta tem força de lei, e aqui mudam da posição de defensores independentes de uma causa, para governantes. Se no artigo anterior definiram que a OLP e a Palestina são uma mesma coisa, aqui assumem a postura de governantes, legisladores do território.

No vigésimo nono, último artigo, asseguram-se que esta carta não pode ser modificada senão por eles mesmos, ou seja, após autointitularem-se representantes máximos do povo palestino, símbolos nacionais, e governantes legisladores, os comunistas da OLP ainda asseguraram-se de que tudo isto, só pode ser modificado por eles mesmos.

Observação: A nota inicial da carta avisa que ela é idêntica à carta de 1968, com a diferença de que em 1964 apenas Israel era o território palestino a ser “libertado” como alvo da jihad, enquanto na de 1968, foram incluídos os territórios da Cisjordânia e Faixa de Gaza, devido à guerra dos seis dias, assunto que será tratado em um próximo artigo dessa série.

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