Diferente de minhas críticas de cinema habituais, esta é sobre um filme cujo protagonista reúne três tipos de público diferentes:

  1. Fãs do professor
  2. Inimigos do professor
  3. Aqueles que não o conhecem

Tanto uma parcela de seus inimigos quanto a totalidade daqueles que não o conhecem possuem algo em comum: não tem uma ideia exata de quem seja Olavo de Carvalho. Também boa parte de seus fãs conhecem apenas vídeos pelo youtube mas não imaginam muito além daquele sujeito paternal botando ordem na casa brasileira, aplicando o tratamento pedagógico digno que cada situação e personagem requerem; por vezes dando uma bronca e outras enaltecendo. Por esse motivo é necessário que antes de falar do filme dirigido por Josias Teófilo, deixar resumido e superficialmente claro quem é Olavo de Carvalho.

As informações abaixo são objetivas e documentais, não sendo possíveis quaisquer “opiniões” acerca das mesmas.

Olavo escreveu aproximadamente 63 livros entre 1980 e 2014 (confira), recebeu 8 prêmios importantes nas áreas de filosofia e história entre 1985 e 2012 (confira), reúne uma lista aproximada de 62 admiradores notáveis, figuras relevantes e de grandes realizações (confira), e uma lista de detratores e inimigos que o combatem sem jamais ter sucesso (confira), palestrou, lecionou e ministrou inúmeros cursos em instituições importantes, escreveu aproximadamente 1643 artigos na grande mídia em veículos como Folha de São Paulo, Zero Hora, Jornal da Tarde, Diário do Comércio, revista Época, O Globo, entre outros desde 1998 até o presente. Sozinho, o livro “O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota” ultrapassou os 320 mil exemplares vendidos, é impossível calcular a vendagem total de todos os seus livros.

Sociologicamente o fenômeno Olavo de Carvalho pode ser comprovado a partir das reações diversas de seu público seguidor e estudioso, que durante as manifestações recentes carregavam cartazes contendo o bordão “Olavo tem razão”.

Tais manifestos também ficaram registrados em outros pontos diversos, como placas de trânsito, bancos de ônibus, pilastras de pontes, e etc, de tal forma que é impossível rastrear a totalidade.

Confirmando a influência de suas palavras, foi citado durante o impeachment de Dilma Rousseff.

Olavo também virou grife entre diversas idades.

A dedicação principal do professor, diferente do que se pensa não se trata de um combate ideológico contra a esquerda, mas da restauração das inteligências; treinou nomes como, Felipe Moura Brasil, Danilo Gentili, Marcel Van Hattem, padre Paulo Ricardo, Benedito Gomes Barbosa Junior, Flavio Morgenstern, e Ives Gandra da Silva Martins.

Olavo poderia ter fossilizado sua obra servindo-se de uma linguagem profundamente erudita e tornando-a acessível apenas para estudiosos com alto nível intelectual, mas sabia que isso a tornaria ininteligível para o brasileiro que teve sua educação devastada por quarenta anos, por esse motivo adotou uma linguagem diferente em seu programa True OutSpeak, mais similar a um Alborghetti, de forma a esclarecer os assuntos abordados à mesma população. O resultado foi o sucesso total do programa que durou 6 anos, de 2006 a 2012. Assim, o brasileiro teve a oportunidade de escapar da mídia que nada fazia além de publicidade travestida de jornalismo, para a realidade, e ouvir alguém que estava narrando os fatos como eles realmente aconteciam e realizando juízos de valor expressos de acordo aos fatos mesmos.

Ao longo dos anos o público reunido através das redes sociais ultrapassou 700 mil seguidores no Facebook, 137 mil no Twitter, e a marca dos 4 mil alunos no Curso Online de Filosofia.

O pequeno compilado de informações acima não resume a totalidade da carreira do professor, mas apenas serve para dar uma base de quem se trata.

O filme de Josias Teófilo, não é apenas sobre a figura do professor e nem apenas sobre o livro “O Jardim das Aflições”, mas um filme de filosofia.

Teófilo apresentou o cotidiano do professor, a humildade de sua família, um pouco de suas crenças religiosas, e muito de sua sabedoria sem se prender na pessoa do professor, mas focando sua visão.

Durante o curso História Essencial da Filosofia lecionado no Rio de Janeiro em 1993 e 1994, logo nas primeiras aulas o professor define a filosofia como “a busca metódica pela unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa”, o filme trata essencialmente disso, proporcionando a experiência ímpar de acompanhar um filósofo fazendo a filosofia ali, naquele momento, aos olhos do expectador; qualquer um que diga que o filme não traduz bem as ideias do filósofo, não conhece sua obra e portanto não merece respeito.

Tecnicamente o filme é excelente, com destaque para a impecável fotografia do premiado Daniel Aragão (“Boa Sorte, Meu Amor” e “Prometo um Dia Deixar Essa Cidade“) e para trilha de sonora, a 1ª sinfonia de Jean Sibelius por Guto Brinholi, que é a cereja do bolo. O filme que com um baixo orçamento de 315 mil reais que não contou com nenhum recurso público, entrou para a história como a maior campanha de arrecadação voluntária (crowdfunding) já realizada, diferenciando-se assim de praticamente todas as produções cinematográficas brasileiras que além de dependerem de financiamento estatal geralmente via Lei Rouanet, ainda entregam obras de baixa qualidade técnica e conteúdos irrelevantes ou no máximo panfletos ideológicos de esquerda, ponto para a produção de Matheus Bazzo, e surpreendeu pela harmonia impressionante entre forma e conteúdo: Josias Teófilo já havia comprovado talento quando premiado em 2013 com o curta “Quarteto Simbólico“, seu primeiro filme, exibido em mais de 30 festivais, e nesse novamente não decepcionou, orquestrou tudo com maestria monstruosa, soube precisar cada momento cirurgicamente, combinando o conteúdo da mensagem em cada pequena tomada com a emoção do momento de forma adequada servindo-se de todo repertório da linguagem cinematográfica, enquadramentos, ângulos, som, montagem, tudo encaixou-se; abusou maravilhosamente dos ângulos de nuca para nenhum Gus Van Sant botar defeito. O ponto positivo do roteiro fica a cargo da divisão dos assuntos que dá formato espiral ao conteúdo sempre girando sobre o eixo da mensagem principal transmitida logo de início.

“Do Olavo de Carvalho não se fala”, disse Milton Temer, líder comunista.

Excluído do Globo, Jornal da Tarde e da Época, as tentativas da esquerda de calar o professor não se deram por satisfeitas afastando-o da grande mídia, ainda investiram inúmeras vezes contra o site do Seminário de Filosofia e seu site pessoal.

O cenário que se desenha é o de uma inegável guerra cultural na qual a produção do filme sofreu tentativas de sabotagem da equipe, e após pronto o filme foi censurado em Pernambuco, e seus realizadores perseguidos, Daniel Aragão por exemplo viu-se obrigado a sair do país devido as ameaças recebidas no meio. A guerra cultural nesse caso não foi apenas vagamente divulgada pela mídia mesma que o censurara durante anos, como também revelou mais uma vez que os jornalistas não atuam senão como publicitários ideológicos.

O filme é excelente, é uma das grandes realizações brasileiras e também o importante registro de uma época e de um personagem histórico enquanto vivo, presente e atuante.

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