Supernatural está no ar desde 2005 e conta a estória dos irmãos Winchester em busca de seu pai e de respostas, engajados numa luta interminável contra forças sobrenaturais do mal.

Eric Kripke mantém a história girando sobre a busca pelo pai e por respostas, com temas de fundo de caráter mais filosófico como os desdobramentos da tensão permanente entre a atitude determinada de Dean e a complacência de Sam, ambos evoluem episódio a episódio, aprendem com seus erros e crescem; na mesma medida Kripke explora também a questão da vocação como destino, sem com isso determinar o fim da história, ou seja, a combinação perfeita entre livre arbítrio e destino. Kripke também explora o sacrifício como elemento presente e consequente de seguir uma vocação.

Dessa primeira temporada o destaque para os dilemas morais tratados filosoficamente vai sem dúvidas para o 12º episódio (não, não vou dar spoiler), que é fortíssimo, uma verdadeira provação para os protagonistas sobre o valor da vida que, dada sua intensidade espetacular, coloca também o expectador para refletir (e muito!).

Outro ponto importante é que cada episódio possui uma abordagem de rapport entre coadjuvantes e protagonistas, nos quais os problemas ou histórias dos que estão em perigo são sempre parecidos em algum ponto com os de Sam, Dean, ou de ambos ainda; não sei ao certo se foi intencional de Kripke, caso positivo o sujeito é um gênio, e caso negativo tratar-se-á de uma das mais felizes coincidências do cinema, pois isso acontece na realidade constantemente: os problemas das pessoas que socorremos cotidianamente geralmente são muito parecidos com os nossos.

Cada episódio explora uma lenda diferente, pontos folclóricos ou religiosos de diversas tradições, e este não é apenas um ponto positivo pela curiosidade ou registro histórico de lendas locais na formação de culturas provincianas, mas além disto é um detalhe interessantíssimo.

Tecnicamente, há um desenvolvimento nítido na capacidade de dramatização da dupla de protagonistas, os irmãos Winchester, Sam e Dean, de Jared Padalecki e Jensen Ackles, crescem muito como atores; há por outro lado uma certa involução, um certo retrocesso de qualidade, se por um lado as trilhas sonoras, os figurinos e os cenários, permanecem compatíveis com as funções de situar os personagens na história de acordo à cultura do seu tempo, enquanto em nada pecam ao dar o tom das emoções, já a fotografia parece relaxar, perdendo gradualmente o sombrio e assustador, que se salvam pelo trabalho de edição impecável. As cenas de suspense e ação nada devem para filmes de terror da mais alta qualidade e não raras vezes são melhores que The Walking Dead, são maravilhosamente torturantes, de fazer o espectador devorar a tela esperando o próximo acontecimento.

Escrevi uma crítica exclusiva do primeiro episódio pois foi dirigido por David Nutter, vale a pena conferir clicando aqui.

Ainda há a questão das simbologias, que conforme comentei no artigo anterior, são abundantes e impressionantes mesmo de uma perspectiva simplista, uma semiótica audiovisual que nada tem de subliminar, mas expressa-se poeticamente; se o nome “Winchester” simboliza armas e a luta de ambos é contra o mal, configurando-os como “armas contra o mal”, o conjunto informativo completa-se e alcança a perfeição em algumas intervenções divinas que os impulsiona vocacionalmente, formando um cenário no qual não são apenas armas, mas “armas divinas”, inconscientes da origem de sua missão, mas conscientes do universo que participam.

A primeira temporada é maravilhosa.

Agora vou assistir a segunda. 😉

Anúncios