Constantine foi aos cinemas em 2005 para deixar claro que terror pode ter muita qualidade, e que a adaptação das histórias em quadrinhos para o cinema poderia resultar em grandes realizações.

O filme dirigido por Francis Lawrence é baseado na HQ Hellblazer de Alan Moore e publicado pela DC Comics. O personagem John Constantine é um experiente exorcista com um ego inflamado que enfrenta demônios e fenômenos sobrenaturais, numa jornada para impedir a tomada do planeta pelos mesmos, nesta seu caminho se cruza com o de Angela Dodson, uma policial cética que carrega segredos e um dom, no final das contas tudo faz parte de um plano maior, muito maior, cujo tema central é o destino das almas, a salvação ou condenação.

A simbologia empregada é toda de mitologia judaico-cristã, não só nos objetos como em termos conceituais, definições morais, cenários, enfim, toda atmosfera; o filme não mostra o cigarro como pecado por tratar-se de vício, mas por tratar-se de uma forma de suicídio, da forma que o protagonista usa. Tais recursos foram montados em harmonia tal que tudo parece possível numa experiência de imersão completa no universo proposto, uma experiência perfeitamente vivenciável, e razoavelmente intensa.

Tecnicamente a trilha sonora é mediana, mas o efeitos sonoros são perfeitos, a fotografia não apelou para o habitual sombrio dos filmes de terror, mas para tons de crepúsculo, dos últimos raios de sol do dia, aquele amarelado doloroso aos olhos, angustiante que sugere a chegada da noite e harmoniza com a situação da vida de John Constantine (relaxe, não vou dar spoiler) e os ângulos escolhidos também colaboram desenhando o momento de acordo não somente à necessidade de situar o expectador, mas permitindo uma leitura emocional de imersão; o elenco é maravilhoso, na minha humilde opinião foi o melhor trabalho de Keanu Reeves, ao passo que Rachel Weisz convence como Angela Dodson embora não tenha sido tão intensa, e os coadjuvantes sejam todos maravilhosos, intensos e reais; o Chas Kramer de Shia LaBeouf  é o Robin perfeito, o Meia-Noite de Djimon Hounsou é fantástico, o mestiço Balthazar de Gavin McGregor Rossdale é o tipo de vilão que te faz babar de raiva, o anjo Gabriel de Tilda Swinton podia ser melhor mas ainda merece elogios, o Lúcifer de Peter Stormare é um pouco fraco e deixa a desejar, Max Baker como Beeman rouba a cena e contracena de igual com Reeves, até o Scavenger de Jesse Ramirez tem alto desempenho, do elenco um coadjuvante em especial merece muito respeito e admiração: o Padre Hennessy de Pruitt Taylor Vince que é o melhor, o sujeito atua monstruosamente. Figurinos caprichados, que desenham o estado de espírito de cada personagem com maestria, cenários perfeitamente montados, cuja iluminação provoca o mergulho na emoção do momento, a edição ficou perfeita ao ponto de tornar-se imperceptível, e a curva dramática do protagonista que neste enredo exigia uma dramatização romanesca, conseguiu ser a cereja do bolo.

Parece claro que de todos os detalhes técnicos, a atuação do elenco seja o que mais apreciei (dificilmente vê-se uma equipe tão competente e empenhada) e sugere que a direção de Lawrence tenha sido um trabalho mais de liderança, harmonizando técnica e relacionamento com a equipe, de forma a extrair o melhor de cada um, e inclusive as outras equipes técnicas como fotografia, trilha sonora e edição que em nada deixaram a desejar.

A mensagem por trás da narrativa é em primeiro plano encontrar o propósito da vida no amor ao próximo, que contrasta com o excessivo amor a si próprio, e em segundo plano a necessidade da existência de todo um universo metafísico sem o qual a própria vida não possui qualquer sentido.

O filme é excelente em todos os sentidos, é impossível criticá-lo negativamente, e é impossível assistir uma vez só: definitivamente a Warner Bros acertou.

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