O drama de época mexicano dirigido por Alfonso Arau foi aos cinemas em 1993. Conta a estória de um intenso amor proibido que se passa em 1910 durante a revolução mexicana, que remete à uma reflexão de valores existenciais e sociais em esferas e contextos diferentes.

Em termos técnicos, o filme tem altos e baixos: a música de Leo Brouwer hora acerta, hora erra, mas isso em parte atribuo à edição da dupla Carlos Bolado e Francisco Chiu, que não souberam lidar com os picos emocionais, aceleraram onde pausas eram necessárias, e desvalorizaram a maravilhosa fotografia de Steven Bernstein e Emmanuel Lubezki, o trabalho destes dois é a cereja do bolo, uma das melhores fotografias que já tive o prazer de contemplar.

Quanto ao elenco, o Pedro Muzquiz de Marco Leonardi é mediano, podia ser melhor, o personagem é muito mais intenso, e o mesmo vale para a Tita de Lumi Cavazos, o casal protagonista tem também seus picos de adrenalina e apatia na atuação; a grande surpresa é a coadjuvante Regina Torné, cuja Mamá Elena faz qualquer expectador sentir vontade de matá-la, a mulher convence, emociona, envolve, é uma das mais impressionantes atuações de vilãs já feitas: a mulher é um monstro de talento (eu se pudesse, teria atravessado o monitor e a pego pelo pescoço!). Ainda nos coadjuvantes, há agradáveis e notáveis: Claudette Maillé a irreverente Gertrudis, e o racional doutor John Brown de Mario Iván Martínez, a única que realmente merece uma crítica negativa feroz no elenco é Yareli Arizmendi que apresentou uma Rosaura sem tempero algum, a mulher tem a personalidade de um tofu e emociona tanto quanto uma samambaia.

Um ponto que realmente causou estranheza de momento foi o desfecho dado pelo roteiro de Laura Esquivel, que deu um salto imenso para o futuro em momento inoportuno (só assistindo para entender), mas que no mais é um trabalho digno de elogios moderados.

Para orquestrar todos estes recursos, Alfonso Arau não deixou a desejar, mas também não foi o ápice, o adjetivo adequado é “ótimo”, com mais um pouco de atenção à edição e música teria alcançado a excelência.

A Miramax escolheu bem, a produção de Alfonso Arau conquistou um investimento de 2 milhões de dólares que resultou numa bilheteria de 21 milhões só nos EUA, além de indicações e prêmios:

  • Lista dos 100 melhores filmes mexicanos da revista Somos (México)
  • Indicação de melhor filme em língua estrangeira – BAFTA (Reino Unido)
  • Indicação de melhor filme em língua estrangeira – Globo de Ouro (EUA)
  • Indicação de melhor filme estrangeiro de língua espanhola – Goya (Espanha)
  • Premiação de melhor atriz (Lumi Cavazos) – Festival de Gramado (Brasil)
  • Premiação de melhor coadjuvante (Claudette Maillé) – Festival de Gramado (Brasil)
  • Escolha como melhor filme pelo júri popular – Festival de Gramado (Brasil)
  • Indicação ao Kikito de melhor filme latino – Festival de Gramado (Brasil)

Em contexto filosófico, a mensagem por trás da narrativa me agradou até antes do desfecho, pois gira em torno de um único eixo, a questão existencial, o amor visto pela perspectiva da ética, tal questão pode ser colocada como uma única pergunta: “vale a pena viver uma mentira?”, e até antes do desfecho para o final Laura Esquivel me parecia digna de um Fyodor Dostoevsky em Crime e Castigo, mas ela desviou-se da questão central para girar sobre o eixo questão social, as consequências, os desdobramentos como recebidos pela sociedade, o que modifica a ética para o ponto fútil da participação em um grupo, é uma esfera diferente da mesma questão, é também outro contexto, e ela poderia muito bem ter sido coesa: ou lhe faltou inteligência, ou experiência, o nexo é perdido entre dois instantes da história.

Também me incomodou um pouco a dramatização da vilã cuja maldade teve como origem sua hipocrisia, mas cuja culpa é atribuída às tradições que por sua vez são cristãs: é a revolta estúpida de Jean Jacques Rousseau no Contrato Social, mas que ao invés de transferir a responsabilidade do indivíduo para a sociedade, a transfere para uma determinada tradição religiosa. Isso sem contar a estranha dialética entre tons de cristianismo e espiritismo, demonizando o primeiro em detrimento do segundo.

O destino dos personagens ad-hoc também não foi exatamente digno, revelou uma falta de habilidade para lidar com os mesmos, William Shakespeare teria pavor do destino de Rosaura e John Brown, pois, a profundidade filosófica existencial que a obra alcança, exige tratamentos dignos para o desfecho, não basta apenas consumir com um personagem errante, ele precisa encontrar a consequência de seus atos desde a origem de forma adequada: nestes dois personagens a falta foi imperdoável.

Para além destas visões o filme tem um grande ponto positivo: ele consegue expressar a arte da culinária, iniciando nos sentimentos impressos na alma, processados no momento, e culminando em uma expressão na atividade da cozinha, que resulta no sabor e no efeito do paladar. Isso é inovação em termos de linguagem, não conheço outro autor até o momento que tenha feito isso.

Laura Esquivel também consegue relacionar o amor e o desejo sexual, passando pela paixão, sem apelar à pornografia de forma única, esse é um talento raro, e no caso dela de se tirar o chapéu; sem contar os inúmeros caricatos simbólicos apresentados com excelente humor, a personagem Gertrudis é aqui o destaque.

A história começa bem e se desenrola com excelência, é fortíssimo, te afeta e te faz refletir, mas o desfecho tenta te conduzir, e isso eu realmente não gostei: recomendo o filme com reservas, é um filme para se assistir após uma certa maturidade intelectual.

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