A crítica musical no Brasil é muito pobre, os poucos e bons críticos musicais nacionais praticamente não tem voz, e o que sobra para o povo é ler e ouvir não mais que opiniões miseráveis.

Praticamente o único crítico musical de respeito que ganhou alguma voz foi Regis Tadeu, e ainda assim pouco espaço: o sujeito quando fala, dá um show.

Eu, como já pratico crítica de cinema, resolvi me aventurar também no mundo da crítica musical, esta é minha primeira crítica e espero que seja de algum proveito.

Segundo o compositor e teórico musical italiano do século XIX, Pasquale Bona, a música é a arte de manifestar os diversos afetos da nossa alma mediante o som, e seus elementos mais importantes são melodia, harmonia, e ritmo.

  • Melodia – é a combinação de sons sucessivos, ou seja, um após o outro.
  • Harmonia – é a combinação de sons simultâneos (tocados de uma só vez).
  • Ritmo – é a combinação dos valores no discurso musical, regulados pela maior ou menor duração.

O termo crítica por sua vez vem do grego “kritikē”, e significa “discernir”, “separar”, “julgar”, ou em outras palavras: decompor avaliando. Trata-se de uma arte. Etimologicamente, na raiz do termo, trata-se em última análise de um ato de preservar, colocar em dúvida, e até descartar, elementos segundo o mérito, o que merece ou não ser afirmado.

O trabalho nesse caso, consiste em decompor em termos técnicos e aspectos culturais, como história e cerne filosófico, tanto a composição sonora quanto a mensagem literal quando há letra.

No caso da música, estabeleço por critério que seu objetivo, segundo Bona, é manifestar os afetos da alma mediante o som, e portanto, aquele que houve deve sentir o que o músico transmite, ou do contrário, a música não aconteceu, resumiu-se a barulho.

Meu critério será esse.

Esta será como disse minha primeira crítica musical, e para tal escolhi uma música que ouvi muito durante minha adolescência: Kelly’s Heroes, do Black Grape.

Começando pelo aspecto histórico (minhas próximas não serão tão chatas, asseguro-vos nobres leitores, este que vos escreve não tornará a botar o pé em vossos preciosos sacos), Black Grape é uma banda de rock inglesa que iniciou em 1993, e seu estilo musical mistura funk (o original e não esse lixo que temos no Brasil) com rock eletrônico, batida eletrônica, e acústico, é no final das contas rock alternativo.

Kelly’s Heroes é uma música de 1995, do álbum “It’s Great When You’re Straight…Yeah” (É ótimo quando você é direto…Sim), e segue um tom irreverente.

Em termos técnicos, melodia, harmonia e ritmo se encontram em tom irônico de uma letra cáustica, num espírito de quem esfrega a verdade na cara de quem ouve, não chega ao visceral, mas provoca muito e serve-se de símbolos culturais carregados de valores e tradições. Não é exatamente um espírito revolucionário, mas uma cobrança abstrata.

O autor da letra, Shaun Ryder (Shaun William George Ryder) que é também o vocalista, alcança uma pseudo-crítica cultural, sem aliar-se a tendências como punk, mas flertando com as mesmas.

Tradução da letra:

Não fale comigo sobre heróis
A maioria destes homens canta como surfa
Jesus era um homem negro
Não Jesus era Batman
Não, não, não, não, não mesmo!
Esse foi Bruce Wayne

Quem tem o maior
Quem tem o maior
Quem tem o maior cérebro
Por um ano eu a fodi
E Dennis dorme fodido
Ele vai vir à tona novamente

Não fale comigo sobre heróis
A maioria desses homens canta como surfa
Não me fale de seus grandes, grandes heróis
A maioria destes homens canta como surfa

Ele nunca um homem triste
Ou o chamado ruim homem mau
Ou é isso ralo abaixo
Bem, ele descarta homem-peixe
Com sua parte central bronzeada
Entao corta todas as falhas

[ Refrão ]

Não fale comigo sobre heróis
A maioria desses homens canta como surfa
Não me fale de seus grandes, grandes heróis
A maioria destes homens canta como surfa

Nós vivemos uma vida dupla
Nós negociamos sexo e mulheres bonitas
[Sussurrado] Contemplando

Não fale comigo sobre heróis
A maioria destes homens canta como surfa
Não me fale de seus grandes, grandes heróis
A maioria destes homens canta como surfa

A análise simbólica, encontra, dentro da licença poética, dois símbolos culturais de justiça, Jesus e Batman, em um contexto cotidiano, não são eles próprios, mas representações de outras pessoas, uma referência indireta e abstrata, adaptável a qualquer molde que se entenda por herói.

No refrão, encontra-se uma jocosa competição, insinuando competição pelo tamanho do pênis, ou seja “quem é mais foda”, ou em termos polidos, quem é o melhor. E a estrofe que se segue ironiza, “canta como surfa”, supondo-se que tratem-se de cantores e não surfistas, logo a afirmação é que sejam muito ruins mesmo. A ironia da letra é semelhante em parte à encontrada no poema de Fernando Pessoa, Poema em linha reta, famoso por ser recitado com frequência em diversas obras.

Por acaso do destino, essa música é uma reclamação do mercado pop, afirmando que tudo que é ruim é valorizado e vendido como bom: ou seja, uma crítica musical. Minha surpresa é essa, ter escolhido a esmo, para minha primeira crítica musical, uma música que faz também crítica musical (é coisa de louco. 🙂 ).

A música de onde vejo, guardadas as devidas proporções, é sensacional.

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