Este remake do lobisomem original de Curt Siodmak, de 1941, foi lançado em 2010. Dirigido por Joe Johnston, o filme contou com uma equipe talentosa, mas pecou no roteiro. A estória já contada anteriormente é a do homem que volta para o lar, é mordido por um lobisomem e se torna um, enquanto resolve dilemas familiares com desdobramentos sociais, em pleno século XIX.

A equipe sensacional começa com o monstro sagrado das trilhas sonoras, Danny Elfman, não há pecados na música ou efeitos sonoros, com destaque para o rosnado do lobisomem, que aterroriza, Elfman foi indicado para o World Soundtrack Awards de 2010 com este filme, não ganhou, mas estava lá. Em seguida o elenco tem outro monstro sagrado, Anthony Hopkins como Sir John Talbot, Hopkins dispensa apresentações e rouba a cena sem abrir a boca, o homem está lá, e sua presença é inegável. Já a menos experiente Emily Blunt faz de sua Gwen Conliffe, uma das mulheres mais femininas que o cinema já conheceu, digna de comparação com a protagonista Elizabeth Bennet de Orgulho e Preconceito de Jane Austen, Blunt faz Conliffe falar pelos olhos, e pelo toque, mesmo quando não abre a boca, no elenco ela é a segunda melhor, e contracena de igual com o veterano Hopkins. O talento não acaba aí, o Agente Smith de Matrix entra em cena, (sim!) o poderoso Hugo Weaving encarna o sisudo investigador Francis Aberline da Scotland Yard, e vai caçar o lobisomem. Outra que atuou muito foi Geraldine Chaplin com a cigana Maleva, que com pouquíssimas aparições mas na hora certa, convence qualquer um.

O ponto negativo (e muito…) é para o protagonista: Benicio del Toro, este é o primeiro grande erro do filme (que contém dois grandes erros), seu Lawrence Talbot, não tem curva dramática, o personagem tem a emoção de um mingau de leite sem açúcar. Imaginem, o sujeito chega de fora do país para ver sua família que está cheia de problemas sérios, é mordido por um lobisomem, se torna um monstro, passa por muitos problemas na sociedade local, e permanece exatamente o mesmo, como se o nada afetasse, ao passo que, dado o personagem e a meta narrativa, isso deveria ser a coisa principal, a contratação de Benicio foi um erro, colocassem um Hugh Jackman e ninguém jamais esqueceria Lawrence Talbot.

A maquiagem de Rick Baker foi premiada com justiça no Oscar em 2011, o figurino de Milena Canonero não fica atrás, e os cenários são no mínimo muito bons; afinal, maquiar um lobisomem não é maquiar um garoto qualquer, e o lobisomem aqui convenceu, perdendo apenas para o de Van Helsing (o melhor lobisomem da história do cinema).

A cinematografia de Shelly Johnson é outro ponto muito positivo, pois não é nenhuma brincadeira de criança transformar um homem em lobisomem e convencer quem está assistindo que aquilo é real, isso flerta com a genialidade; e as tomadas de câmera vão além do padrão técnico comum, que informam o cenário através de aberturas de câmera para situar o expectador, e vão fechando na medida que o cenário perde a importância, até o close para transmitir a emoção do momento, tudo na arte dele transmite emoção junto à informação; Johnson soma, e merece ser reconhecido.

O segundo erro do filme é sem dúvidas o roteiro, a dupla Andrew Kevin Walker e David Self errou muito. O filme demora para começar, e as vezes falta informação, numa tentativa de misturar uma certa linguagem poética e abusar do conhecimento popular, acaba por desprezar nexos importantes no argumento, tanto que o filme não deixa claro qual sua meta narrativa: o que afinal de contas ele quer dizer? qual sua mensagem como eixo central? Então surge um apelo no começo do filme, que se repete no encerramento, mas que não encontra um encaixe perfeito na trama. Se a intenção era saber quando é justo matar, tal qual o raciocínio proposto, por outro lado o roteiro conta uma história de amor, mista de emancipação, e a pena de morte em si fica diminuída. A meta narrativa é muito análoga à de “Dr. Jekyll and Mr. Hyde” de Robert Louis Stevenson, onde o pacato doutor Jekyll consome uma determinada substância e se transforma no monstro Hyde. Em resumo, matar o animal incontrolável, é matar o homem, o humano, que perdeu o controle? Isso é moral ou imoral? É certo, ou errado? E o roteiro fugiu dessa questão, e acabou por assassinar a meta narrativa.

Apesar de todos os pesares, Joe Johnston conseguiu orquestrar essa tremenda equipe e entregar um filme digno, que se não fosse o roteiro e Del Toro, seria um blockbuster, Johnston é inocente quanto ao resultado, dirigiu corretamente e merece ser elogiado.

A Universal Pictures por pouco não conseguiu fazer uma das grandes obras do universo de terror e fantasia do cinema.

Minha nota é um 7,5, mas vale a pena assistir.

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