Os trajes femininos de até meados do século XIX ainda valorizavam o corpo da mulher, desenhando seu corpo e estimulando o imaginário masculino sem apelar à pornografia.

Agora quando não a fazem parecer um espantalho, a fazem parecer uma prostituta de beira de estrada.

Como resultado da perda do critério estético, a noção de sensualidade também se perdeu.

Mas qual é o critério estético? E como isso aconteceu?

O corpo da mulher e do homem são parecidos até certo ponto. Ambos possuem dois braços, duas pernas, um tronco e uma cabeça, e até aqui são iguais, mas há atributos que são exclusivamente das mulheres e outros dos homens.

A mulher se diferencia do homem em seu corpo por possuir seios, quadris mais largos, coxas mais grossas que acompanham os quadris, e traços delicados no rosto e na pele.

O homem por sua vez é diametralmente oposto, possui um tórax mais largo, uma pele mais resistente, nada de delicadeza – mas quero aqui concentrar-me na mulher.

Essas diferenças entre os traços do desenho do masculino e feminino não são por acaso, nem exclusivamente arte plástica da natureza, e nem ainda por capricho desnecessário divino, são por necessidade: a mulher e o homem necessitam um do outro para reproduzir, e estes traços são todos em função disso. Os seios para amamentar, os quadris capazes de se mover para o bebê nascer, e para o encaixe do homem, todo o ventre para a procriação, e as coxas para suportar o peso por nove meses.

Não atrairá o instinto masculino, as formas que são próprias da mulher? Não despertará o sexo do homem, o que é necessário para sua procriação? A este insinuar dos desenhos do sexo, chama-se sensualidade, não mostrar de uma vez, mas estimular a imaginação.

Hoje, o guarda roupas feminino está repleto de calças jeans, saias, shorts, macacões, e outras peças, que quando não escondem tudo, mostram tudo. O meio termo se perdeu e a imaginação ficou por conta exclusivamente do ato sexual, sem o estímulo prévio, sem a excitação.

A cada dia que passa, novos retardados estilistas (desculpem, mas são homens que gostariam de ser mulheres, que não as amam, que não as desejam, e que acabam por as desprezar) (é tudo viado) apresentam roupas cujo significado não é mais o corpo da mulher, mas um abstrato inútil, que varia entre uma seriedade sóbria e casta, ou uma exposição barata e porca na qual a mulher está disponível para o coletivo.

Há ideia mais imbecil que um terno feminino, no qual a mulher mais parece um robô, que nasceu para trabalhar, em cujas veias não corre sangue, mas óleo de máquina?

E por outro lado, há ideia mais desprezível que um short que mostra parte da nádega de uma vez, e proíbe a mulher de escolher o homem que quer, carregando a mensagem que ela está ali, sexualmente disponível para qualquer elemento do coletivo, como boneca inflável desprovida de alma?

Foi sim, até meados do século XIX, que a mulher fez o homem imaginar, com roupas que desenhavam, mas não mostravam, e dali para frente a coisa rolou ladeira abaixo. Belmiro de Almeida pintou no final do século XIX, mulheres que choravam pela falta de desejo de seus homens, em uma crítica da libertinagem, que por sua vez é o fio condutor para esterilidade; o mostrar demais, o vulgar, não funcionam a longo prazo, matam o desejo pela pessoa e estimulam o desejo pela situação, é a própria definição de fetiche: um fetiche pode produzir transas espetaculares, mas com prazo de validade curto.

Se o mundo imaginado por Huxley em “Admirável Mundo Novo”, parecia um sonho para algumas mulheres que não mais se apaixonavam, mas apenas selecionavam homens para o sexo, descartando-os em seguida, a realidade inverteu a situação: ela agora pode ser sóbria demais, focada na carreira e desinteressada de romances, e não ser desejada por ninguém, como pode no outro extremo estar interessada em sexo, e como sugere a utopia feminista transar com quem quiser, mas apenas transar, e viver no constante desprezo dos homens.

A mulher quando estimula a imaginação, escondendo ao passo que insinua, transmite a mensagem que para conquistar o sexo, terá que ser CONQUISTADA, ou seja, o sexo dela é um privilégio para um apenas, aquele que a conquistar, e todos os outros terão que se conformar com olhar e não possuir. É difícil entender que a sensualidade é o que realmente valoriza a mulher como um todo? Como um ser com alma e não apenas uma máquina de sexo? A mentalidade contemporânea me deixa perplexo, a inversão é irracional ao ponto da grosseria: é de uma burrice que supera qualquer expectativa.

Um excelente filme para acompanhar e delinear essa ideia é Moulin Rouge, cuja narrativa se passa ainda no século XIX, e não deixa dúvidas de que a mulher ainda tinha orgulho de sua sensualidade. Trata-se daquela mulher que conhece seu potencial de fêmea e diz no olhar: “Eu sou gostosa, e sou muito, mas não sou para qualquer um…”.

A modernidade não matou apenas o guarda-roupa, mas matou também o comportamento e a personalidade; só não vou abordar esse tema aqui, para não fugir do escopo, mas num futuro eu prometo.

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