Este curto e despretensioso texto (que desde já assumo tratar-se de um rascunho) sobre a natureza da arte abstrata é inspirado pela explicação de Roger Scruton no documentário da BBC chamado “Why Beauty Matters” (Por que a beleza importa?).

Toda vez que me deparo com o termo “arte”, no cotidiano, no meio popular, sem grandes aprofundamentos, entendo que meu interlocutor quer dizer “expressão de alguma coisa”, seja uma emoção ou um raciocínio.

Assim busco alguma mensagem na obra, seja literatura, música, pintura, escultura, cinema, teatro, etc.

Quando vejo algo bem definido, cujo objeto do assunto está ali presente, a compreensão é fácil, mas conforme afasta-se da expressão, a leitura torna-se difícil, na mesma proporção.

Como cada obra registra um objeto, seja algo ou alguém, geralmente junto a alguma intenção, como raciocínio ou emoção, sempre procuro discernir primeiro o objeto para depois entender a emoção, num conjunto de ações e desdobramentos possíveis ao objeto em questão.

Li no começo de “Como ler livros” do Mortimer Adler, que existem 4 níveis de leitura: poética, retórica, dialética, e lógica. De meu entendimento, a poética é um nível com muita abrangência, do qual muitas possibilidades de interpretação são possíveis, seguido da retórica na qual essas possibilidades começam a tomar alguma forma, em seguida pela dialética onde essas formas confrontam-se para eliminar as impossibilidades, e finalmente pela lógica analítica, na qual o objeto aparece já com limites bem definidos, perfeitamente compreensível.

Quando me deparo com uma arte abstrata, de qualquer natureza, a única coisa que sei de imediato é que trata-se da expressão de alguma coisa, a qual não consigo perceber, mas que está dentro do conjunto da arte, e esta é por definição expressão. Sendo expressão, é necessário que o autor tivesse algo a dizer, tentou isso, e à sua maneira expressou. Em outras palavras, embora eu não possa compreender de imediato, é certo que há algo ali – e esta certeza eu posso carregar.

Então penso que ainda que se existe esse algo – e ele existe – então ele tem uma forma, e esta é minha tarefa como leitor da obra, encontrar sua forma.

Na forma reside a questão, mas o autor não deixou isso claro, deixou isso como tarefa para seu público, investigar sua intenção.

Uma vez que a forma não está clara mas o objeto está lá, então me resta o raciocínio que, o que antecede suas definições, é sua formação, ou sua transformação, de uma forma para outra.

Se a forma não está clara, mas o objeto está presente, então trata-se de um objeto em formação, ou transformação: um objeto assumindo alguma forma.

O autor de arte abstrata (mesmo que não saiba), está muito provavelmente expressando o processo de formação do objeto, o qual pode ser obscuro mesmo para ele, pois a arte requer um objeto, e mesmo que ele enquanto autor não o compreenda, o está expressando.

É o nível da leitura poética que mencionei acima em seu primeiro estágio.

Nesta figura que selecionei para este texto, é possível reconhecer essa formação.

Formas geométricas como quadrados e retângulos são reconhecíveis, e um contraste de cores proposital para que ganhem alguma forma, ainda que não assumam uma forma total.

Figuras intermediárias como cruzes são possíveis de serem encontradas, e por fim as superposições dos quadrados e retângulos, que passam a ideia de objetos.

Vou aprofundar este raciocínio em algum tempo, mas o que entendo é que a arte abstrata busca expressar o raciocínio em formação, que não atinge ainda o nível da leitura retórica.

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