Ontem, 12 de julho deste 2017, cheguei do cinema pela meia-noite após realizar um grande desejo: assistir um Homem-Aranha com as mãos do presidente gênio da Marvel Studios, Kevin Feige.

A adaptação do personagem de Stan Lee soou como reboot, e merecia, nenhum dos anteriores havia explorado o personagem com tal dignidade, Feige fez milagre integrando-o ao Universo Marvel, dimensionando-o de acordo à abrangência de sua época: o colegial.

Não é ainda o Peter Parker maduro, fotógrafo free-lance do Clarim Diário de J. Jonah Jameson, interpretado com absoluta genialidade por J K Simmons, nos três filmes de Sam Raimi, e nem o jovem seguro de si com personalidade formada, dos dois de Marc Webb. É ainda um adolescente, em pleno ensino médio, pintinho saindo da casca do ovo, é a primeira fase do aracnídeo logo após a morte do Tio Ben, e antes de se formar.

Um adolescente em desenvolvimento, ansioso por provar algo para si e para os outros, angustiado com problemas que se por um lado são pífios, por outro são a formação da personalidade.

O espírito do personagem, seu cerne, sua coluna vertebral, que se expressa com a célebre frase de Tio Ben “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, e é sempre o norte da meta narrativa, cujas histórias sempre exploram desdobramentos da máxima, houve aqui um pecado justificável do roteiro, pela época e idade do personagem; apesar da traumática morte de seu amado tio e tutor, que lhe marca o início da carreira como ferro em brasa em couro de gado, aqui o roteiro escrito a cinco mãos resolveu explorar o desenvolvimento dessa percepção. Em outras palavras, Parker sabe que é responsabilidade sua, mas não está ainda calculando corretamente as consequências de seus atos, e quem aparece para lhe dar a dura lição paternal é o Homem de Ferro, o Tony Stark, de Robert Downey Jr. A curva dramática do jovem escalador de paredes é explorada com força e emoção, é dolorosa, humilhante, mas libertadora, e aqui está o perdão dos roteiristas.

Downey nasceu para fazer Stark, não há substitutos, o dia que o sujeito morrer o personagem acabou – é essa a impressão que fica.

Jon Watts dirigiu como um gênio, e as mãos de Feige são perceptíveis em toda a linha, da trilha sonora fantástica, maravilhosa, e sobretudo surpreendente de Michael Giacchino, que vai desde a abertura, com a ideia de “Spider Man” do Ramones orquestrado, passa pelos impecáveis efeitos sonoros, e vai até o encerramento. A cinematografia de Salvatore Totino é inovadora e exigente, pois a amplitude dos movimentos de um personagem tão ágil requer maior abertura de câmera, não para simplesmente situar o expectador, mas para compreender a ação no momento em que ela acontece, Totino deu vida e integrou o coração do público, que dessa vez não precisou ver tudo em primeiro plano, de forma confusa, como pelo capacete de um motoqueiro, como na experiência de Marc Webb.

Eu sinceramente não acho que Tom Holland seja ainda o Peter Parker ideal, mas que sirva muito bem para esta fase do personagem, que ainda nem conheceu sua primeira namorada dos quadrinhos, Gwen Stacy, o garoto se encaixou bem, e atuou muito bem também, não há críticas negativas para ele aqui, pelo contrário, merece ser enaltecido.

Todos os coadjuvantes foram excelentes, o único que realmente não gostei foi o Flash Thompson de Tony Revolori, que fugiu completamente ao garoto grandão do colégio que atormenta a vida de Parker, aqui foi apenas um invejoso comum. E uma grata surpresa foi a Michelle Jones de Zendaya Coleman, apresentando-se como MJ, as iniciais de Mary Jane, futura esposa do herói, que embora não fosse ela, ainda há uma química entre ambos, nítida, nisso reconheci de imediato a mão de Feige.

O destaque de atuação monstruosa e espetacular vai para Michael Keaton, que fez o ex-empresário e agora traficante de armas Adrian Toomes, se tornar o melhor vilão Abutre que o cinema poderia conceber; eu não vou dar spoiler – isso seria filha da putice – mas a cena do diálogo no carro entre ele e Holland, tem que entrar para história da carga emocional do cinema, e mais, a redenção do personagem exigia uma curva dramática quase impossível, Keaton dramatizou como um mestre; e a nova geração que aprenda com mestres como ele.

Apesar de alguns personagens defenderem ideologias com muita sutilidade, como Michelle que aparenta um certo feminismo, e de Adrian que tem um nítido discurso comunista, e ainda do tom punk anarquista na trilha sonora, o filme não só não é político, como fecha com chave de ouro a questão: o discurso do Abutre, vilão é um discurso de luta de classes marxista, é um vilão que justifica sua maldade com ideias da esquerda política – caiu como uma luva.

Eu só não vou dar nota 11 pro filme, porque a contagem é de 0 a 10, vai meu 10, com louvor, vale a pena e vale muito.

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