Sem o amor, June Carter seria apenas Valerie June Carter, e John R. Cash jamais seria Johnny Cash, mas após encontrarem o amor, um nos olhos do outro, a dupla fez a América cantar, mudou os rumos da música, e entrou para história. Esta deliciosa e sofrida história capaz de arrancar lágrimas de uma pia de mármore, é contada pelo consagrado diretor James Mangold, em Walk The Line, filme de 2005, que chegou ao Brasil com o nome Johnny e June.

Quem assistir conhecerá ambas trajetórias, com foco em Johnny, mas que se cruzam e a partir de então estão condenados ao verdadeiro amor, sem o qual a vida não vale a pena. Ainda garoto Johnny tem que lidar com a perda do irmão, seu grande amigo e companheiro, e com um pai insensível, incapaz de medir palavras, e por vezes violento. Cash foi parar na Força Aérea Americana, serviu na Alemanha, voltou para América, foi vendedor porta a porta, casou-se com a mulher errada, teve filhos, conheceu a necessidade e a falta de dinheiro, apostou no talento, e alcançou o sucesso, mas atravessou as drogas, o vício, magoou pessoas queridas, e perdeu-se, até que o amor de June, como um anjo enviado por Deus, o colocou em pé, o limpou, e o fez tornar-se ele mesmo novamente.

Não é um filme sobre a carreira de um músico, é um filme sobre a essência da música, conforme definido por Pasquale Bona, compositor e teórico musical italiano do século XIX, “Música é a arte de manifestar os diversos afetos da nossa alma mediante o som.”, e a essência da música do casal Cash, foi o amor.

Para sintetizar uma vida tão intensa e cheia de acontecimentos, James Mangold (Logan, Wolverine Imortal, Os Indomáveis, Garota Interrompida, entre outros) que assinou o roteiro junto com Gill Dennis (O Mundo Fantástico de Oz, Justiça sob suspeita, Forever, e demais), conseguiram informar e emocionar, o roteiro é completo e veloz, e para um filme com duração de mais de 2 horas, é no mínimo um trabalho sensacional, você não cansa assistindo, é movimento em tempo integral, é vivo.

A fotografia de Phedon Papamichael (Caçadores de Obras-Primas, O Caçador e a Rainha do Gelo, Nebraska, etc) foi um trabalho fantástico, pois as tomadas de câmera tem movimento de acordo à emoção, em muitos momentos evitam-se os cortes e a câmera aproxima-se ou afasta-se, conforme o sentimento ou tempo, essa sensibilidade Phedon demonstrou, é como se você que assiste se aproximasse de Cash e sentisse o que ele está sentindo. Também, o esquema de cores serviu-se do matutino angustiante para infância, do vespertino pálido para a juventude, e de um tropical mais vivo para o retorno, a fotografia acompanha a meta narrativa por toda transmissão da mensagem.

A trilha sonora como coração de um filme sobre música, ficou com o competente T-Bone Burnett (Jogos Vorazes, Across The Universe, Estrela Solitária, e muito mais), que deu vida ao filme, selecionando o que Cash tinha de mais marcante, a versão da canção Walk the line, foi um espetáculo à parte, uma vez que todas são emocionantes e envolventes, não são músicas para ouvir, são momentos para sentir, são situações para viver, e Burnett foi o responsável por esse mergulho de alma.

Numa obra audio-visual tão rica em informação e emoção, a edição de Michael McCusker (13 Hours, The Girl on the Train, The Amazing Spider-Man, e mais uma série), que novamente trabalharia com Mangold em Logan, foi suave e violenta, você não percebe os cortes, pois McCusker consegue trabalhar o ápice emocional e suas amenizações, seu trabalho merece reconhecimento.

Com relação ao elenco, muitos elogios e uma única falha. Dos elogios o destaque para Joaquin Phoenix, que convenceu a cada pequeno detalhe, Phoenix encarnou Cash, deu tudo de si, e Reese Witherspoon entregou a melhor June Carter que o cinema poderia ter, é impossível duvidar por um único minuto que não foram apaixonados de verdade, graças à atuação desses dois, o esforço foi notável ao ponto que fizeram um semestre de aulas de canto com T-Bone Burnett. Dos coadjuvantes, muito notável também foi Robert Patrick, como Ray Cash, pai de Johnny que por pouco não rouba as cenas, o sujeito tem presença, ao passo que merece destaque aqui Ginnifer Goodwin, com a infeliz primeira esposa Vivian Cash. Se eu não elogiar Waylon Payne pelo cheio de personalidade e energia Jerry Lee Lewis, estarei sendo injusto, e para finalizar os elogios (que poderiam se estender demais) é necessário mencionar o produtor musical Sam Phillips, dramatizado por Dallas Roberts, que em suas curtas passagens conseguiu ser um personagem marcante, um ponto de virada na vida do cantor. Como nem tudo são flores, eu realmente não gostei do Elvis Presley interpretado por Tyler Hilton, que ficou muito, mas muito fraco, muito ruim mesmo, ao ponto de incomodar.

A direção impecável, de Mangold foi novamente um trabalho deste mestre, a experiência fez toda diferença, a equipe foi muito bem orquestrada, o resultado final foi um filme de chacoalhar corações e causar uma reflexão sobre a vida: “você viveu um grande amor? se não viveu, está perdendo seu tempo com futilidades”. Mangold tratou com respeito a memória do casal Cash, June faleceu um pouco antes das filmagens começarem e apenas quatro meses depois, Johnny lhe foi fazer companhia, e para uma trajetória tão forte, a curva dramática dos personagens protagonistas, sua evolução, era de uma exigência ímpar, o diretor demonstrou o respeito, a competência e a reverência, mais que merecidas.

O filme foi rejeitado pela Sony Pictures, Focus Features, Columbia Pictures, Universal Pictures, Paramount Pictures, e pela Warner Bros, mas a Fox 2000 Pictures, abraçou a ideia, e realizou um dos mais excelentes registros históricos já produzidos: Walk the line venceu o Oscar de melhor atriz para Reese Witherspoon, mais 44 prêmios e 46 indicações.

Se o orçamento do filme foi de 28 milhões, apenas a estréia no primeiro final de semana ultrapassou uma bilheteria de 22 milhões, e nos primeiros quatro meses alcançou apenas nos EUA, mais de 119 milhões: foi um super sucesso, que justificou todo esforço da produção.

Você não está vivendo um grande amor? Então não está vivendo nada importante, está estragando sua vida. E se quiser aprender isso com uma história real, este é O Filme.

Nota 10 é pouco, mas é a maior nota que conheço: recomendo e insisto, não deixe de assistir.

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