Um sonho para os fãs realizado, um caminho para a DC Comics no cinema traçado, finalmente o homem de aço e morcego frente a frente se enfrentam numa batalha épica. O encontro que foi ao ar em 2016 com a direção do consagrado Zack Snyder não é só uma briga de dois personagens dos quadrinhos, é um choque de visões, uma lição de malícia e de moral. Lex Luthor obcecado pela morte do Super Homem, arma uma cilada, manipula a mídia, o Batman, o governo, e as autoridades, o mundo se torna um tabuleiro de xadrez, no qual ele é o único jogador consciente, e sua missão é assassinar primeiro a reputação, e depois a pessoa do kryptoniano, numa trama complexa, e com muita ação.

Eu honestamente achei que o roteiro podia ser melhor, afinal são 2 horas e meia de filme, a apresentação dos personagens e o desenvolvimento do cenário atrasam um pouco o começo da trama, e algumas informações muito importantes acabam por se perder no tempo, quando são importantes no final a conexão já está perdida, por exemplo, quem assistir vai entender que a chave que soluciona tudo é o nome da mãe de ambos, que por acaso do destino é o mesmo ( não vou dar spoiler, 😀 ). O novato Chris Terrio (Book of Kings, Por Conta do Destino, Argo) e o experiente David S. Goyer (The Forest, Man of Steel, The Dark Knight Rises) que inclusive já havia trabalhado para um filme Marvel, o Motoqueiro Fantasma, que assinam o roteiro, fizeram um bom trabalho, mas que poderia ter sido melhor.

A fotografia de Larry Fong (Super 8, Sucker Punch, Watchmen) foi detalhista, nítida, e comunicativa, não há pecados na fotografia, que soube se servir de luz e sombras, valorizando o drama e a ação na medida certa. Fong também foi responsável pela cinematografia, todos os efeitos especiais maravilhosos levaram sua assinatura, as cenas de batalha nada devem para os épicos Marvel.

Em relação à trilha sonora, o monstro alemão Hans Zimmer (Kung Fu Panda 3, Freeheld, Le Petit Prince, e mais uma lista interminável) trabalhou em conjunto com Tom Holkenborg (Deadpool, Black Mass, Mad Max: Fury Road), e a dupla inovou, com destaque para a tocante Amazing Grace, tocada no funeral de um personagem importante que morre em ação, eles conseguiram capturar as mensagens, os sentimentos, e expressar musicalmente.

David Brenner (Escobar: Paraíso Perdido, 300: A Ascensão do Império, O Homem de Aço, e mais 21 filmes) teve um trabalho monstruoso de edição, num filme com ápices de emoção intercalado com calmarias, em cenários diferentes, com personagens diferentes, sem perder nenhum detalhe importante: o sujeito merece elogios.

Todos queriam saber que qualidade de morcego Ben Affleck (Gone Girl, Argo, The Town, entre outros) entregaria, e o ator conseguiu superar seu antecessor, Christian Bale, que já havia finalmente tirado o morcego dos filmes bobinhos e apresentado um personagem digno, Affleck foi até agora o melhor, mais violento, e mais passional Batman do cinema, e seja lá quem for seu sucessor terá que se esforçar muito para fazer melhor. Ao passo que o Superman de Henry Cavill (The Man from U.N.C.L.E, Man of Steel, The Cold Light of Day) ainda tem algo a melhorar, o homem de aço é mais que o apresentado pelo ator, não ficou ruim, pelo contrário, ficou bom, mas o kryptoniano merecia mais, Cavill não tem a paixão que o personagem requer. Quem fez a lição de casa de tirar o chapéu também foi a israelense Gal Gadot (Triple 9, Fast & Furious 6, Transformers: Dark Side of the Moon), e depois de Affleck é a melhor, Gadot deu vida à Mulher Maravilha, e garantiu seu espaço definitivamente no cinema, com Gadot, a amazona veio para ficar. O ponto negativo (muito mesmo) foi Lex Luthor, Jesse Eisenberg (American Ultra, Louder Than Bombs, The End of the Tour) apesar de muito experiente, parecia mais um novo Coringa do que o vilão Luthor, que nos gibis é dono de uma personalidade forte, é um personagem imponente, não o fraco, esquisito, e confuso personagem, apresentado pelo ator, esse Lex foi uma porcaria. Outro mediano foi a coadjuvante Amy Adams (Big Eyes, American Hustle, Man of Steel) com uma inexpressiva Lois Lane, e uma agradável surpresa foi a doce mamãe de Clark Kent, Martha Kent, interpretada por Diane Lane (Trumbo, Man of Steel, Secretariat), que roubou a cena.

Infelizmente a Mulher Maravilha teve muito pouco espaço, por isso não há curva dramática para o personagem de Gadot, ao passo que Luthor é constantemente mal, e não há evolução, já Affleck foi um show à parte, após enganado e levado ao combate com consequências extremas, expressa o mais sincero arrependimento, a evolução do personagem é simplesmente perfeita. Tal perfeição não é acompanhada pelo Super de Henry Cavill, que se mostra arrogante e indiferente, e de topetudo leva uma lição humilhante, mas Cavill não soube absorver isso, sua expressão era a de uma batata cozida no vapor, como se nada marcante acontecesse ali. Também achei que o vilão Apocalipse poderia ter saído pouca coisa melhor, mas não decepcionou, apenas foi muito bem produzido e muito mal explorado.

A direção de Snyder fez toda diferença, orquestrar uma equipe imensa repleta de talentosos e medianos para um público exigente, num filme que entra para história, é sempre um grande trabalho, e o diretor conseguiu, atingiu um alto nível de satisfação.

O filme lida com a malícia, a manipulação, e uma lição de moral que consiste em jamais cometer julgamentos precipitados por informações que chegam através de boatos, mesmo que de fontes midiáticas, inclusive lembra-me a passagem bíblica de João 8:32, na qual Jesus diz: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, é apenas após a revelação da verdade, que os personagens podem assumir posturas sólidas e dar o melhor de si, e é também a partir deste ponto, que o enredo ganha vida própria.

A Warner Bros acertou sim, a produção conseguiu um orçamento de 250 milhões, a bilheteria mais que triplicou, e superou 870 milhões; ganhou 12 prêmios e foi indicado para outros 29, inegavelmente um sucesso.

Para os fãs e não fãs, eu recomendo, uma nota 8,0 é justa.

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