Em 2008 foi ao ar a quarta temporada do Supernatural de Eric Kripke, e os irmãos Winchester voltaram à sua luta contra o mal com novidades quentes, num tom cinematográfico experimental, com senso de humor mais apurado (que nas tentativas anteriores havia falhado), e uma meta narrativa misteriosa. Kripke não deixou claro de início qual era o objetivo da temporada, deu dicas no máximo sugestivas, mas da metade para frente elucidou que se tratava de impedir o apocalipse.

Quanto ao tom experimental da linguagem cinematográfica, o 5º episódio “Monster Movie” (Filme de Monstro), serviu-se do preto e branco, numa película da fase inicial do cinema, com homenagens e muito respeito à história da sétima arte, da literatura clássica, e do teatro. Kripke fez uma verdadeira reverência. Este tipo de nobreza é assinatura dos grandes mestres, é a comunicação pública com o passado que carrega em seu bojo a mensagem: “Estou me inspirando em vocês, professores, e minha obra ao menos tenta, continuar a vossa”.

A introdução do novo tipo de personagem ( não vou dar spoiler, calma, 😉 ) foi uma providência fantástica e uma grata surpresa, pois sem este não seria possível continuar com um determinado protagonista que teve um destino trágico na terceira temporada. Kripke o fez com maestria, encaixou o inesperado na hora certa e deu vida nova à série, agora mais madura e complexa.

Logo de cara é possível notar a evolução dos atores, Dean e Sam de Jensen Ackles e Jared Padalecki, que convencem muito mais que nas anteriores, e pelo final dramático da terceira temporada, a curva dramática dos personagens exigiu maturidade artística, ambos conseguiram, agora, Sam um homem aparentemente feito e supostamente superior ao seu irmão Dean em alguns aspectos, tudo leva a crer que Sam deixa de ser um protegido de Dean e passa muitas vezes a ser seu protetor, tal mudança de personalidade tão brusca, requer uma capacidade de atuação elevada, e ambos alcançaram a meta sem qualquer dúvida.

A forma como o roteiro se desenvolve é genial, dessa vez (finalmente!) Kripke conseguiu criar rapport que justifique uma paixão, ou melhor, duas, simultâneas, genuínas, e extremamente convincentes, Sam com uma ex-bruxa que se tornou demônia, e Dean com uma anja, e os quatro no meio do fogo cruzado de uma guerra que pode dar início ao apocalipse, protegendo suas amadas por questões morais, a coisa fica romântica de verdade, intensa, e real – o roteiro dessa quarta temporada deveria ter recebido alguma premiação, pois mereceu.

Da metade da temporada para frente, quem achou que tinha entendido tudo, vai levar um belo tapa na cara para deixar de ser presunçoso, 😀 , a coisa toda muda de figura, e o final é extremamente surpreendente.

A fotografia e os efeitos especiais continuam com a mesma qualidade, apesar da surpresa até a metade da temporada com o tom experimental que mencionei há pouco, de forma efetiva não há exatamente alguma grande novidade, senão por alguns giros de câmera para situar os teleportes inesperados ( vou dizer no máximo isso, ou você vai me odiar. 🙂 ), acredito que nas próximas algo deve surgir, pois o processo criativo sempre passa por essas fases de testes ousados.

A trilha sonora acompanha as experiências, e aqui há inovações, as músicas lentas para momentos românticos e leves para momentos suaves, ganham espaço e destaque, a sensação é de maturidade, de ampliação do horizonte de consciência.

Em termos de edição, o esforço foi maior, pois as experiências requereram, e isso nota-se claramente nas introduções que antecedem os capítulos, o editor nessa temporada foi excelente.

O diretor teve trabalho, ganhou algumas coisas novas, mas perdeu algumas conquistas anteriores, como as sensacionais cenas de ação da terceira temporada, esta foi mais espiritual e com trama complexa, mais introspectiva, o que se justifica nos últimos três episódios que são intensíssimos, com toda certeza Kripke teve muito trabalho aqui, e ficou bom.

Entre as questões filosóficas até o meio da temporada, encontra-se a mensagem de não julgar pelas aparências, mas desenvolvida à partir do confronto das aparências com os conteúdos, a ética desde a alma, se os anjos são parte de um grupo dito bom, e os demônios de um grupo mau, para além dos grupos existem as decisões individuais, além de personagens que sequer sabem o que estão fazendo ou a qual grupo pertencem, agindo somente por impulso. Já do meio para o final, outras questões importantes são desenvolvidas, e a principal é o sacrifício pessoal em nome de um bem maior, inclusive desenvolvida com excelente argumentação.

Acho que, de certa forma e em certos pontos, essa temporada ficou devendo para as anteriores, mas com promessas de superação para as próximas.

Começo a quinta em alguns dias. 😀

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