The Dirty Dozen de 1967 chegou ao Brasil com o nome Os doze condenados. O filme dirigido pelo veterano premiado Robert Aldrich, foi baseado no livro de mesmo nome de Erwin Nathanson, lançado em 1965, somente dois anos antes.

O filme conta a estória de um major incumbido de recrutar, treinar, e levar à uma missão suicida 12 condenados à morte por crimes diversos, cada um com uma personalidade e história diferente. A missão consiste num importante ataque aos alemães, durante a Segunda Guerra em 1944, e para motivá-los, o major consegue negociar o perdão para os que se comportarem adequadamente, e a morte instantânea para os que saírem da linha.

Nathanson já está de parabéns como escritor, pois seus personagens tem história, personalidade, alma, não são meros estereótipos soltos em um cenário, e comparado à literatura contemporânea o salto de qualidade, com direito à queda inimaginável, de um iluminado 1965, para as trevas de um 2017, do alto de um Monte Everest, para um fundo de poço no qual só se encontram cadáveres secos: a nossa época. O abismo é gritante.

O roteiro que Nathanson assinou junto com Nunnally Johnson (As Vinhas da Ira, Holy Matrimony) e Lukas Heller (Hush… Hush Sweet Charlotte, What Ever Happened to Baby Jane?), é simplesmente uma obra de arte, a trama é intensa a cada minuto e te faz não descolar os olhos da tela, são 2 horas e meia de reflexão, ação, humor, e tragédia.

A fotografia de Edward Scaife (The African Queen, 633 Squadron, The Kremlin Letter) não foi premiada, mas situa o expectador, informa quanto ao cenário e às emoções individuais com uma certa nobreza, está entre o bom e o ótimo.

Frank De Vol (Anjos Rebeldes, Paris Follies of 1956, Pânico em Singapura) conseguiu uma indicação ao Oscar com a trilha sonora, que não levou, mas levou por melhores efeitos sonoros. A maior parte do currículo de Frank é com shows para TV, neste trabalho ele certamente se superou. A música e os efeitos ficaram a contento, entre o bom e o ótimo também.

O que me chamou atenção logo de cara foi a edição, Michael Luciano (Os Quatro Heróis do Texas, Assim Nascem os Heróis, The One Man Jury) conseguiu cortes suaves para cenas de tempos e espaços distantes, em situações muito diferentes, que transmitem um conforto e sensação de continuidade, e jamais nos deixam sentir cansaço, seu trabalho também recebeu indicação para o Oscar e infelizmente não levou, merecia sim.

No elenco há destaques cujo mérito é inegável, Lee Marvin (The Delta Force, Dívida de Sangue, Os Corruptos), o paternal major John Reisman que foi perfeito não só por ser um grande ator que já havia ganhado um Oscar em 65, mas por uma larga experiência como oficial da Marinha Americana, o papel caiu como uma luva, tudo que ele precisou fazer, foi ser ele mesmo, e o sujeito fez muito bem (até eu senti vontade de me alistar outra vez! 😀 😀 😀 ).

Charles Bronson (Desejo de Matar, Era uma vez no Oeste, O Mensageiro da Morte) atuou muito, muito mesmo, ele convence como o invocado condenado Joseph Wladislaw, que possui uma sinergia fantástica com Reisman, a dupla é terrivelmente crível, e não é só isso, a curva dramática de seu personagem é impactante, que vai de um odiador dos militares à um promissor oficial. Bronson foi digno de um Oscar, mas não foi indicado.

John Cassavetes (Uma Mulher sob Influência, The Killers, Tempestade), como coadjuvante também fez toda diferença, o divertido e malandro condenado Victor Franco, que desencadeia as mais hilárias situações e que sempre terminam em castigo para a tropa toda que inocente compra suas ideias bestas, a trama praticamente depende deste personagem sem o qual a noção de disciplina militar se perderia, é com ele que Reisman encarna o papel de pai do pelotão, administra castigo, trabalho, e recompensas de acordo ao mérito, e transforma os condenados assustadoramente. Cassavetes foi indicado ao Oscar, e ao Globo de Ouro, ambos merecidamente, pena não ter ganhado nenhum.

Robert Aldrich dirigiu um time que poucos anos mais tarde entraria para a história do cinema, e uma narrativa marcante o suficiente para jamais ser esquecida e ainda ser inspiração para outras que também chegariam ao mesmo sucesso, como uma recente que já critiquei, o Esquadrão Suicida, da DC Comics, cujo argumento é literalmente o mesmo. Aldrich conquistou não apenas respeito, mas consagração com essa obra.

O filme custou para a época 5.4 milhões de dólares, e realizou uma bilheteria de 45.3 milhões, 4 indicações para o Oscar, das quais ganhou o de melhores efeitos sonoros, mais 8 indicações e 5 vitórias para prêmios diversos.

A MGM Studios acertou comprando a ficção de Nathanson para torná-la um tapa na cara de qualquer moralista de plantão, filosoficamente argumenta e remonta a hierarquia de princípios cristãos, colocando o amor ao próximo como fundamento da lealdade e da solidariedade, e qualidades tais que tornam possível a existência da sociedade ocidental, norteando a organização social. O valor do perdão e a ponderação caso a caso, avaliando se há mérito ou não, fazem da obra uma reflexão profunda.

Este é um filme do tempo em que a arte e a reflexão ainda se encontravam no cinema.

Com toda baixa qualidade de produção, exclusivamente pelo roteiro e pela mensagem, pela profundidade que conversa com nossas almas, vale uma nota 10.

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