Este é o segundo filme da Trilogia dos dólares, e continua a aventura do “Pistoleiro sem nome”, que desta vez apresenta-se como um caçador de recompensas e vai parar numa cidade chamada El Paso, no Texas, onde conhece outro caçador de recompensas, e ambos estão atrás do mesmo criminoso, El Indio, o mais perigoso bandido e chefe da mais perigosa gangue de ladrões de banco.

Per qualche dollaro in più, nome original foi lançado em 1965, apenas um ano após o primeiro, Por um punhado de dólares, nos EUA foi chamado For a few dollars more, e no Brasil chegou com o nome Por uns dólares a mais. O spaghetti western ganhou muito com esse filme, é nítido o salto de qualidade técnica do primeiro para o segundo, em um prazo tão curto de um ano, o que se justifica pelo orçamento, pois dessa vez embora ainda muito baixo, o orçamento foi o triplo do primeiro, 600 mil dólares, e a bilheteria pouco superior à do primeiro, 15 milhões.

Clint Eastwood permaneceu o mesmo, uma leve diferença de seriedade e pouco menos de humor, se no anterior sua malandragem era um pouco engraçada, neste o tom é mais sério, não um aventureiro, mas um amadurecido, seu personagem “Pistoleiro sem nome” não diz o próprio nome em momento algum, mas alguns o chamam de Monc, sem muitas explicações, soa como apelido. A atuação é levemente melhor que o anterior.

Saudoso e carismático, Lee Van Cleef apresentou um Coronel Douglas Mortimer à altura, em termos de atuação o sujeito convenceu tanto quanto Eastwood, um personagem em busca de uma vingança pessoal. O sujeito merece respeito.

Gian Maria Volonté reaparece nesse filme como o perigoso, ardiloso, e perturbado vilão, El Indio, e atua também melhor que seu papel anterior, o igualmente vilão principal Ramón Rojo.

Comparado com o elenco anterior, este é superior, todo elenco de coadjuvantes atua melhor, isso é inegável.

A fotografia de Massimo Dallamano, mesmo diretor de fotografia do filme anterior, está tão superior, que nem parece o mesmo diretor, o salto é considerável. Ennio Morricone é novamente fascinante, o sujeito é um monstro (e está entre meus favoritos, 🙂 ). Carlo Simi como no anterior um grande figurinista, novamente te ajuda a viajar imaginariamente para a época. O grande salto de qualidade, o mais notável está sem dúvidas na edição, o trio Eugenio Alabiso, Giorgio Serrallonga, e Adriana Novelli, te fazem dessa vez ver um filme sem cortes grosseiros, a dupla de editores do anterior foi com justiça substituída por profissionais melhores.

O roteiro assinado pelo trio Fulvio Montella, Sergio Leone, Luciano Vincenzoni, segue em qualidade ao anterior, mas é dessa vez mais complexo, pois há tramas múltiplas se desenvolvendo, ao mesmo tempo que os protagonistas procuram o mesmo bandido por uma recompensa, ainda há o trauma de El Indio relacionado ao passado do Coronel Mortimer que busca por vingança, e no decorrer, ainda assaltos a banco. É superior em complexidade, mas idêntico em qualidade técnica, pois apresenta os personagens, informa os cenários, e começa rapidamente, tão bem quanto no primeiro.

Para história do cinema, este é um clássico absoluto do faroeste que não ganhou prêmio algum e nem sequer foi indicado, uma injustiça absurda, pois um filme que realiza mais de vinte vezes seu orçamento em bilheteria, é sem nenhuma dúvida um sucesso de público. Foi injustiça e ponto final.

A narrativa trata dessa vez de uma perspectiva diferente da mesma questão do filme anterior. Se no primeiro o título “Por um punhado de dólares”, sugere que a motivação dos personagens fosse o dinheiro, e no decorrer apresenta motivações espirituais muito superiores, fazendo do dinheiro desprezível diante do valor do caráter, ao ponto que um determinado protagonista (não vou dar spoiler. 🙂 ), simplesmente abre mão de uma fortuna e continua seu caminho indiferente ao dinheiro, e feliz por seu bom ato, por sua realização, desta vez, em “Por uns dólares a mais”, a abordagem é análoga, um personagem que deveria ligar muito para dinheiro, afinal é um caçador de recompensas, novamente abre mão do mesmo, mas o destino o recompensa (não, não vou contar, você vai ter que assistir. 😛 ), de forma que não termina nada mal, bem consigo, com sua consciência limpa, e com o bolso cheio.

A abertura dessa vez traz uma mensagem, “Onde a vida não tem valor, a morte às vezes tem seu preço. É por isso que os assassinos por recompensa apareceram.”,  e tal mensagem vai além de explorar o caráter como no anterior, mas da necessidade de uma polícia eficiente no estado, os “caçadores de recompensa”, surgem por um clamor popular contra a violência, roubos, assassinatos, e injustiças: e funciona. É o capitalismo mostrando a relação entre preço e valor, precificando a segurança em defesa da própria vida e propriedades. Há muito mais reflexão explorada nesse segundo filme.

Sergio Leone não apenas dirigiu uma equipe melhor, mas cresceu como diretor e roteirista, aqui o sujeito está mais que de parabéns, tornou-se digno de homenagens. Leone não registrou apenas uma aventura, foi além, registrou uma reflexão, talvez involuntária, talvez poética de certa forma, e também um estereótipo de época perfeito, que através dos trabalhos da equipe que orquestrou, somados, faz-nos saber como era ser homem naquela época e cultura: e sentir aquela inveja boa, não de quem quer destruí-los e tomar seu lugar, mas de quem deseja pegar um cavalo e sentir o vento no rosto e o sol na cabeça, livre da frescura da sociedade moderna.

Novamente, neste segundo filme da trilogia, deixo algumas informações relativas à inspiração e origem da estória, para tratar quando publicar uma crítica da trilogia como unidade, o que farei no final, após assistir o terceiro.

Uma nota 10 é justa.

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