No ano de 2018, com Bolsonaro eleito presidente, a jovem adolescente Silvana de 37 anos foi tomada de um surto de raiva nunca visto antes.

Em sua fúria, bradava contra os céus, infernos, e terra, pois seus projetos políticos iam por água abaixo no Brasil, a ativista do feminismo viu o esforço de toda sua vida desfazendo-se como papel de seda em água de sarjeta.

A garota dedicara uma vida toda às causas políticas que acreditava de toda a alma, queria o fim do casamento, odiava os homens, e acima de tudo lutava pela liberação do aborto, essa era a pauta principal, Silvana incentivava garotas a tomar medicamentos abortivos, acreditava que uma criança era o fim da liberdade de uma mulher, e que o casamento fora feito para oprimi-la como mulher.

Durante uma virada cultural Silvana encontrou com sua melhor amiga, Helena, de 25 anos, grávida de 2 meses.

– Já retirou o tecido parasitário?!
– Sil… Eu não sei se é uma boa ideia… Eu nem sei se quero tirar…

– Sem essa garota! Chega desses conceitos cristãos! Dessa sociedade patriarcal nojenta! Eu vou deixar um comprimido aqui na sua bolsa… Ainda hoje você vai tirar esse feto! E se não tirar, amanhã vamos à uma clínica clandestina!

Enfiou um comprimido e um cartão com telefone da clínica na bolsa de Helena, e prosseguiram.

Foi em plena Avenida Paulista, na virada cultural durante a madrugada, que em meio aos colegas de ativismo fantasiados, ela conheceu uma estranha com rosto pálido, longos cabelos negros lisos que iam até a cintura, um vestido preto comprido, e olhos muito fundos. A estranha passeava em silêncio, solitária, e serena.

Silvana chamou suas amigas e disse:

– Que mulher estranha!
– De quem você está falando Silvana?
– Aquela, ali na esquina!
– Não há ninguém ali, Silvana… Você já bebeu demais… Vamos embora!
– Vocês é que beberam demais! Eu já volto!

E partiu atrás da elegante desconhecida.

Virou uma esquina e viu a moça caminhando na outra esquina, apertou o passo, e seguiu-a. Inesperadamente o céu aberto fechou-se, e começou uma chuva. Silvana viu a moça entrando em um bar, e pensou ser essa sua chance. Entrou molhada e tocou-a no ombro.

– Moça!

E voltando-se, a estranha olhou-a inexpressiva.

– Me chamo Silvana… Que maquiagem boa é essa sua que não se desfaz com a chuva! E riu-se.
– Não é maquiagem, você está me vendo assim, cada um me vê como quer, estou trabalhando…
– Trabalhando essa hora?! Com chuva?! De madrugada?! Em pleno feriado?! Essa sociedade é injusta demais!
– Na verdade meu trabalho aumentou muito, e você só está me vendo porque eu estou deixando, meu trabalho aumentou precisamente por causa de seu trabalho, e eu quero que você veja com seus próprios olhos, Silvana.
– Como assim?! Quem é você?! Como me conhece!?
– Eu não tenho um nome, vocês me chamam de “morte”.
– HAHAHAHA! É pegadinha da turma! Esse pessoal não tem jeito… Já me aprontaram cada uma…
– Amanhã você fará meu trabalho, é por isso que está aqui.

Disse isso e tocou com o indicador a testa de Silvana, que adormeceu, e levantou em seguida no plano espiritual. Silvana viu seu corpo caído e dois homens providenciando-lhe socorro.

– O que houve?! – disse o balconista.
– Não sei! Essa doida entrou correndo da chuva e começou a conversar sozinha… aí caiu…

Olhou para frente e viu a pálida parada olhando-a fixamente.

– O que está acontecendo aqui?!
– Você está morta, mas vou devolvê-la ao corpo em 12 horas, portanto, acalme-se.

A feminista espantada, tentou argumentar.

– Mas Marx disse que não havia nada no além! Meu Deus!
– Marx, esse aí foi quem mais me deu trabalho até hoje.
– O que você quer de mim?!
– Que você faça meu trabalho por algumas horas.
– Não é possível! Colocaram alguma coisa na minha bebida, eu devo estar numa viagem muito louca! Isso sim!
– Sinto decepcioná-la, mas isto é real, e você se lembrará de tudo depois, e contará, mas ninguém acreditará em você. De qualquer forma, é irrelevante se acreditarão ou não em você.
– Certo… o que eu tenho que fazer?!
– Eu vou te levar aos lugares, e te mostrar as pessoas, assim que elas morrerem você deverá tocá-las, elas levarão um susto, estarão desorientadas, e você deverá explicar-lhes o motivo de suas mortes. Fique tranquila que você só fará essa região da cidade por algumas horas, não te levarei pelo planeta inteiro.
– Tá bom… Eu vou é acordar daqui a pouco! HAHAHA!
– Vou avisar antes: se você mentir uma única vez, não voltará ao seu corpo.

O tom de seriedade fez a feminista sentir um gelo percorrer sua espinha.

Ao virar o rosto para o outro lado, Silvana viu-se numa cena de assalto, num mercado, já amanhecendo, enquanto aos berros o bandido fora de si surpreendia uma senhora com uma garotinha.

– Essa senhora que eu devo tocar?
– Espere.

O policial entrou e ao perceber que o bandido apertaria o gatilho, disparou antes.

Agonizando no chão, Silvana viu a senhora agradecendo ao policial aos prantos, com sua garotinha assustada ao lado, ouviu a ordem para tocá-lo, e obedeceu. Ao acordar o bandido viu seu corpo no chão, olhou para ambas e perguntou:

– Estou morto?!
– Sim você está! – disse Silvana.
– Por que!?
– Porque você é um idiota.

E o rapaz se foi.

Um vento soprou com mais força, e ao se dar conta estava de volta à Paulista, onde um rapaz drogado atravessava a avenida surpreendendo o trânsito, e um ônibus que virava a esquina sem ter tempo para frear, o atropelara. A morte lhe deu um sinal positivo com a cabeça, e ela aproximou-se tocou-o, e viu-o levantar-se são, surpreso, e confuso.

– O que houve aqui?!
– Você morreu rapaz.
– Como?! Minha família está me esperando em casa… Não pode ser!
– Você usou drogas demais, perdeu o controle, e atravessou a avenida no meio do trânsito, infelizmente aconteceu!

E desaparecendo ele se foi.

Piscou os olhos e estava na saída de um motel, onde dois travestis brigavam e um esfaqueou o outro, que caiu contorcendo-se. Ela já sabia, dirigiu-se ao rapaz e tocou-o. Sentindo o toque, ele levantou-se e ouviu seu algoz gritando:

– Crime de ódio! Homofobia! Assassinaram meu namorado!

O rapaz que olhava seu corpo no chão inerte, percebeu ambas e disse:

– Já entendi, estou morto, mas por que…
– Olha rapaz, infelizmente foi este o caminho que você escolheu… Você sabia que seus companheiros travestis andavam armados com facas, e que isso é o que acontece nas brigas desse mundo.
– Estraguei minha vida… Não era isso que eu queria!
– Infelizmente, ela acabou.

Silvana engoliu seco, e ao virar o rosto estava em um ambiente que já conhecia: a clínica de aborto, que recomendara à Helena. Olhou para a morte preocupada e questionou:

– O que estamos fazendo aqui?!
– Você sabe. Vamos ao terceiro leito.

Caminhou até o terceiro leito e o médico que começava a cirurgia disse:

– Helena, você tem certeza do que está fazendo?
– Sim doutor!
– Sua gravidez corre bem, você pode ter uma linda criança para alegrar seus dias!
– Não quero estragar meu corpo doutor! Minha amiga insistiu tanto para vir… e ela está certa! Não vou estragar minha vida por causa de um bebê!
– Olha Helena, você sabe que essa é uma cirurgia perigosa…

Silvana desesperou-se.

– HELENA! NÃO! NÃO HELENA! PARE! HELENAAAAAAA! NÃO! NÃO! NÃO!
– É inútil, ela não pode te ouvir.
– Você precisa parar essa cirurgia!!! PARE COM ISSO AGORA!!! FAÇA ALGUMA COISA!!!!
– Eu não posso. Meu trabalho é apenas recolher os que morrem.

O monitor cardíaco parou de bipar com a crueldade de um sol poente. Helena estava morta.

– Eu não quero tocá-la! Não me faça fazer isso! – Bradou Silvana aos prantos.
– …

A morte nada dizia.

Silvana tocou sua amiga que levantou-se da mesa confusa, muito mais que pudesse supor.

– Silvana… o que está fazendo aqui?!
– Hora da morte, dez e vinte e cinco. Tirem o corpo do leito, limpem a bagunça e chamem a próxima, pelo menos ela pagou antes. – disse o doutor.
– Silvana, o que está acontecendo?! Por que ele está dizendo isso!? DOUTOR! DOUTOR!
– Helena… Eu sinto muito… Eu…
– Pelo amor de Deus! O que está acontecendo!? Alguém fale comigo!!!
– Helena se acalme… Você… você… v…

Helena virou-se e viu seu corpo no leito, sendo enrolado pelas enfermeiras que perguntavam:

– O que vamos fazer com esse corpo?!

Então olhou para Silvana.

– Eu estou MORTA?! EU MORRI?! MORRI POR CAUSA DO ABORTO?! É ISSO?!

Silvana olhou para a morte, estática a morte a encarava de volta. A feminista precisava agora explicar-lhe o motivo de seu óbito.

– Helena, você morreu durante a cirurgia.
– O que você está fazendo aqui sua desgraçada! Eu vim aqui seguindo os SEUS CONSELHOS! É TUDO que você tem a me dizer?! Seu LIXO DE GENTE!!!
– Me perdoe! – e as lágrimas rolavam inconsoláveis pelo rosto de Silvana, a sábia conselheira, a justiceira social.
– Isso é imperdoável. Você me assassinou.

E com essas palavras, desapareceu no ar.

– Agora já chega! Eu não quero mais ver isso! – Bradou Silvana.

Esticando a mão, a pálida tocou-lhe com o indicador a testa, e a feminista acordou dentro de um hospital.

– Helena! Meu Deus! Helena!

Pegou o celular e ligou para sua grande amiga, que não atendia por insistente que fosse. Levantou-se do leito, e ao correr para fora do hospital encontrou outras duas amigas, lhe disseram:

– Silvana, sente-se por favor, tragam água para ela…

As três sentaram-se, uma colocou uma mão sobre seu joelho, e a outra sobre seu ombro.

– Helena faleceu dez e vinte e cinco, na clínica… aquela lá, você sabe né… alguém deu o endereço para ela ontem… ela foi logo pela manhã… mas…

E choraram.

Na saída da clínica uma folha de papel voando pelo vento veio plainando direto até acertar seu rosto, cobrindo-o todo. Silvana pegou a folha e leu:

“No Brasil, 500 mil abortos acontecem por ano, dos quais 10% (cerca de 50 mil mulheres) morrem durante a cirurgia.”

A vida de Silvana, nunca mais seria a mesma.

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