Muito mais maduro e com nova proposta, a terceira temporada de Supernatural foi ao ar em 2008. Eric Kripke lidou com o problema iniciado no encerramento da segunda temporada, na qual, para salvar Sam, Dean vende sua alma.

Se na segunda temporada Kripke conseguiu resolver o problema da meta narrativa iniciado na primeira, deixou essa nova questão, do destino de Dean para a terceira temporada, e nesta aproveitou para resolver todas as pendências antigas, das temporadas anteriores, como o caçador Gordon Walker, dramatizado por Sterling K. Brown, a dupla de pentelhos metidos a cineastas da primeira temporada, o problema da Colt como única arma capaz de matar demônios, o agente Victor Henricksen do FBI, de Charles Malik Whitfield, até a sedutora ladra Bela Talbot, de Lauren Cohan; tudo isso com aquela sensação de que se resolvem as pendências para introdução de algo novo, muito maior e pior, que está por vir.

De fascinante no resultado técnico, está a meu ver, a maquiagem, com destaque para o penúltimo episódio “Time Is on My Side” (O tempo está do meu lado), que num genial misto de Hannibal Lecter com Frankenstein, exigiu muito do profissional, e convenceu; aqui o talento da produção tornou-se notável.

A fotografia seguiu em tom sombrio, se por um lado não decepcionou, por outro não houveram grandes novidades, manteve-se à altura da segunda temporada.

Quanto à trilha sonora, esta sim, houve um salto de desempenho fantástico, agora totalmente alinhados ao estado de espírito dos Winchesters, que fechou com chave de ouro no último episódio com Bon Jovi, tocando no último um mais que merecido Dead or alive; desnecessário dizer que caiu como uma luva para o episódio onde Dean é caçado por cães do inferno.

Um destaque para a edição que mostrou-se uma obra prima desde a abertura, ao assisti-la, a vontade é devorar a tela.

O roteiro também melhorou bastante, com destaque para três soluções: o do problema com o FBI, o destino da ladra Bela Talbot, e principalmente para o perturbado caçador Gordon Walker, que neste caso se serviu do mesmo arquétipo de um dos momentos mais marcantes de The Walking Dead, o momento em que encontram Judith, a filha da Carol Peletier, num questionamento filosófico muito pertinente: e se o monstro fosse você? O julgamento seria o mesmo? O roteirista brilhou nessa temporada.

Deixei o elenco para o final, por um motivo, eu só tenho elogios: Jared Padalecki entregou um Sam Winchester muito mais intenso, e Jensen Ackles um Dean Winchester pirado, angustiado, aflito, desesperado, pronto para morrer, que convenceu e envolveu. A dupla de caçadores não foi a única digna de elogios, três outros merecem destaque aqui: o primeiro é sem dúvidas o caçador Gordon Walker, que em algum momento achei que fosse se tornar o Blade, Sterling K. Brown conquistou o selo Wesley Snipes de qualidade, o segundo é Jim Beaver, que interpretou o Bobby Singer desde a primeira temporada, mas nessa mostrou do que é capaz, e em terceiro lugar para Lauren Cohan, que fez todo mundo ficar emputecido com sua Bela Talbot, e nesse caso, é bom lembrar que ela já brilha muito (merecidamente) com a durona Maggie Greene em The Walking Dead. Se há um ponto neutro no elenco, é para a endemoniada Ruby, de Katie Cassidy, sim, a Canário Negro de outro seriado, Arrow, aqui ela foi água com açúcar e podia ter colocado muito mais presença de espírito.

O diretor conseguiu ainda colocar uma química violenta entre Dean e Bela, e entre Ruby e Sam, eu podia jurar que Dean e Bela se atracariam a qualquer instante nos últimos episódios como animais, e nem um beijinho houve 😦 . Merecia, pois o rapport é inegável, ambos com o mesmo problema, na mesma situação, e precisando desesperadamente um do outro, foi um desperdício; já entre Ruby e Sam, a excessiva tolerância de Sam entrou em contato com a suposta vontade de voltar a ser humana de Ruby, a ex-bruxa que agora se tornara uma espécie de demônio arrependido, eles combinam, de forma inegável. Ainda no trabalho da direção, orquestrar essa equipe pequena, mas repleta de talentos, recursos de produção, e desenvolver a linguagem cinematográfica de forma entregar um trabalho tão bem feito, em plena greve dos roteiristas, mereceu reconhecimento.

Como meta narrativa um raciocínio sobre a vida e a morte, de plano de fundo Dean caminha para seu destino, vivendo seu último ano de vida, com a passagem para o inferno comprada, e sem chance de retorno, todo o tempo é proposto refletir como somos importantes para nossa família, amigos, cônjuges, colegas, e até como inimigos podem tornar-se amigos diante de um pouco de tolerância e bom senso (o episódio do “brincalhão”, “Mystery Spot”, trabalha isso com maestria). Se Eric Kripke nos fez pensar na vida na primeira e na segunda temporada, nesta nos fez pensar sobre a morte, sobre quem somos de verdade, sobre nossas realizações, e em relação à história, sobre nosso legado.

Há um curso do professor Olavo de Carvalho, que aborda esse tema, chamado “As 12 camadas da personalidade”, que eu recomendo muito, cai como uma luva para essa temporada.

Dessa vez, Kripke me fez pensar muito sobre a morte, assistir essa temporada me colocou numa constante reflexão com a pergunta “e se eu fosse morrer amanhã?”, que para um sujeito como eu que literalmente, mergulha de cabeça e devora o que assiste, consome de alma a arte, foi uma experiência intensa.

Para esta temporada, uma nota 10 é justa.

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