A testosterona deu as caras no cinema em 1964: a coragem, a sagacidade do homem maduro, a exaltação do destemido, do verdadeiro homem, aquele que tem disposição para morrer por algo, e que sabe o que está fazendo, onde está entrando, no que está se metendo, o que é honesto, mas não inocente e está muito longe de ser ingênuo.

Per un pugno di dollari título original do filme do diretor italiano Sergio Leone, chegou nos EUA com o nome A fistful of dollars, e no Brasil como Por um punhado de dólares. O filme é o primeiro de uma trilogia, e conta a história de um forasteiro desconhecido que chega a uma esquecida e pequena cidade do velho oeste, San Miguel, na fronteira com o México, onde dois grupos de traficantes disputam o poder, de um lado os Rojos, contrabandeando bebidas, e de outro os Baxters, que traficam armas e munições, e no meio os civis sofrendo a opressão do crime, e da violência gerada pelo tipo de autoridade imoral que traficantes praticam. O “estranho sem nome”, como ficou conhecido, é quem aparece e resolve enfrentar as duas turmas, suas armas são uma 45, e muita, mas muita astúcia mesmo, o sujeito é um estrategista nato.

A Fisful of Dollars foi uma das produções mais baratas do cinema, com orçamento de apenas 200 mil dólares, em uma co-produção internacional, realizada entre profissionais de 3 países, Itália, Alemanha Ocidental, e Espanha, e dessa despretensiosa produção que consagrou o sub-gênero spaghetti western, faturou uma bilheteria de 14,5 milhões (fez sucesso a cada relançamento).

Clint Eastwood é sem dúvidas um grande ator, um monstro do cinema, que dispensa apresentações, e nesse filme foi uma mistura de malandro com mocinho, na qual o único adjetivo honesto é “perfeito”, ninguém faria melhor.

Fora Eastwood, os melhores atores são Gian Maria Volonté, como o arrogante, ousado, e violento, o vilão principal, Ramón Rojo. A calada e sofrida, a bela e feminina Marisol, que fala pelos olhos, de Marianne Koch. O solidário coveiro de Joseph Egger. O leal e paternal Silvanito, dono do boteco, de José Calvo. E por fim a sensual e esperta Consuelo Baxter, de Margarita Lozano. Todos estes são muito expressivos e convincentes, os demais são medianos mas não atrapalham, e dado o baixo orçamento estão no mínimo de parabéns.

O roteiro é veloz, o filme começa muito rapidamente, e os personagens são apresentados no decorrer da trama, e apenas as informações mínimas necessárias para saber quem é quem e qual seu papel são fornecidas, é de uma simplicidade ímpar, mas não deixa faltar nada, e para um filme de 100 minutos é sensacional. O quarteto que assina (Adriano Bolzoni, conhecido como “A. Bonzzoni”, Victor Andrés Catena, Sergio Leone, Jaime Comas Gil), mais tarde se tornariam referências no bang-bang.

A trilha sonora marcante é do sagrado e consagrado Ennio Morricone, que já dá o tom desde o início do filme, e embora às vezes tenha aquele tom dramático exagerado mexicano, coube como uma luva (se você não gosta de Morricone, ou não conhece, ou não é do sexo masculino, 😀 ). A fotografia da dupla Massimo Dallamano e Federico G. Larraya, é no máximo porca, mas em termos técnicos com a função de informar, atende bem a necessidade. Tanto fotografia quanto trilha sonora são muito prejudicadas pela edição muito ruim mesmo da dupla Roberto Cinquini e Alfonso Santacana, que hora aumentaram o som cobrindo a voz, hora cortaram o som do mais absoluto nada, e sem nenhuma explicação cortaram algumas cenas no auge do pico emocional. O destaque de falha técnica é para a dublagem para o português, cujo único adjetivo possível é péssimo, e ainda é elogio. Entre os pontos positivos está o excelente, espontâneo e muito fiel, figurino de Carlo Simi, é um dos responsáveis pela imersão do expectador na época.

Alguns elementos salvam o filme com louvor, e não apenas o salvam como fazem dele um legítimo clássico do cinema: a trilha sonora, o roteiro, e o elenco. Em especial o roteiro pois, a meta narrativa, a mensagem transmitida através da estória contada no filme, é sobre o valor da coragem, da maturidade, e da lealdade. O pistoleiro sem nome é perspicaz, é esperto, não se deixa enganar, e não é movido a dinheiro, se por um lado o nome do filme é “por um punhado de dólares”, o recado do autor fica claro no final, quando como um nômade, o personagem de Eastwood parte para uma nova aventura (calma, não vou contar o final e nem revelar nenhum detalhe que comprometa sua experiência, não sou um estraga prazeres. 😀 ), e prova que o nome do filme absolutamente nada tem a ver com seu personagem, que é movido por amizade, boa vontade, e no final das contas a melhor leitura é “hombridade”. O filme é isso, uma lição de hombridade.

Uma nota 9,0 é justa.

Algumas informações eu não tratei aqui, como a inspiração do diretor e roteirista, Sergio Leone, na obra Yojimbo, de Akira Kurosawa, por um motivo, estas informações serão mais relevantes quando eu criticar a trilogia como unidade. Em breve assistirei o segundo filme da trilogia, “Por uns dólares a mais”, e em seguida o terceiro e último “Três homens em conflito”, publicarei uma crítica de cada, e na conclusão uma crítica da trilogia como unidade, aí então abordarei a obra de Kurosawa, que é um gigante incontestável do cinema.

Se eu recomendo este filme?! Muito! Mas muito mesmo, se você não assistiu, assista pois é obrigatório.

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